segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 3

Daphne cheirava a cerejeiras e amêndoas. Seu perfume era o mesmo desde os treze anos. Ela o usava na noite anterior e eu ainda podia senti-lo, apesar de ela desejar não me ver nunca mais.
Ela tinha uma cicatriz no pulso, de um arranhão que fez ao tentar subir em uma árvore aos onze anos. Foi culpa minha. Ela não era tão feminina na época, e eu a convenci – ou melhor, a desafiei – a apostar uma corrida até o topo de uma das árvores que cercavam o jardim. Ganhei.
Daphne tinha pânico do escuro, e como eu também tinha meus medos, nunca caçoei dela por isso. E ela tampouco caçoava de mim. Pelo menos não quando as coisas eram importantes.
Ela era alérgica a frutos do mar. Sua cor preferida era amarelo.
Por mais que tentasse, era incapaz de cantar, mesmo que sua vida dependesse disso. Só que ela sabia dançar, então não tê-la tirado para uma dança na noite passada significou mais do que uma simples decepção.
Quando eu tinha dezesseis anos, Daphne me mandou um estojo novo para a minha câmera, como presente de Natal. Apesar de eu nunca ter dado qualquer indício de querer me livrar do estojo antigo, significou tanto para mim saber que ela prestava atenção nas coisas que eu gostava que passei a usar o presente. Eu ainda o usava.
Eu me espreguicei sob os lençóis e virei a cabeça na direção do estojo. Perguntei-me quanto tempo ela teria gasto para escolher o modelo certo.
Talvez Daphne tivesse razão. Tínhamos mais história do que eu havia percebido antes. Mantínhamos uma relação através de visitas espaçadas e telefonemas esporádicos. Por isso, nunca passou pela minha cabeça que aquilo tinha tanto peso.
E agora ela estava no avião rumo à França, onde Frederick a aguardava.
Arrastei-me para fora da cama e arranquei a camisa amassada e a calça do terno para tomar uma ducha. Tentava silenciar meus pensamentos enquanto a água lavava os resquícios do meu aniversário.
Mas não conseguia pôr de lado a denúncia perturbadora que ela havia feito sobre os meus sentimentos. Será que eu não conhecia o amor? Será que eu o havia provado e descartado? Se sim, como lidaria com a Seleção?
Conselheiros corriam pelo palácio com pilhas de formulários de inscrição para a Seleção; todos sorriam para mim como se soubessem de algo que eu ignorava. De tempos em tempos, um deles me dava tapinhas nas costas ou cochichava palavras de incentivo, como se sentissem que eu repentinamente começara a duvidar da única coisa com que sempre havia contado e que tinha aguardado minha vida inteira.
— O lote de hoje é muito promissor — dizia um deles.
— O senhor é um homem de sorte — assegurava outro.
Mas enquanto as pilhas de formulários cresciam, eu só conseguia pensar em Daphne e em suas palavras afiadas.
Eu deveria estar estudando os números do relatório financeiro que tinha na minha frente. Em vez disso, estudava o meu pai. Por acaso ele havia me sabotado? Havia me criado de forma que eu não tivesse qualquer noção do que significava um relacionamento amoroso? Já havia reparado no modo como tratava minha mãe. Havia afeto entre eles, senão paixão. Não seria isso o bastante? Não teria que ser esse o meu objetivo?
Olhava para o nada, perdido em pensamentos. Talvez, na cabeça dele, buscar algo além disso faria com que eu tivesse muita dificuldade em enfrentar a Seleção. Ou talvez eu ficasse decepcionado por não encontrar algo que mudasse a minha vida. Então era melhor mesmo eu nunca mencionar que essa era minha única esperança.
Por outro lado, talvez não fossem esses seus planos. As pessoas são o que elas são. Meu pai era rígido, era como uma espada afiada pela pressão de governar um país que sobrevivia a guerras e ataques rebeldes constantes. Minha mãe era como um cobertor, compassiva devido à infância carente e sempre buscando proteger e reconfortar.
Eu sabia que, no fundo, era mais parecido com ela do que com ele. Não que isso me incomodasse, mas incomodava meu pai.
Assim, talvez o seu plano fosse mesmo fazer de mim uma pessoa incapaz de expressar os sentimentos, parte do processo para me endurecer.
Você é burro demais para reconhecer o amor a dois palmos do nariz.
— Acorde, Maxon.
Virei rápido a cabeça na direção da voz do meu pai.
— Sim, senhor?
Sua expressão era de cansaço.
— Quantas vezes preciso dizer? A Seleção consiste em uma escolha sólida e racional. Não é mais uma oportunidade para você ficar sonhando acordado.
Um engravatado entrou na sala e entregou uma carta para o meu pai. Eu ajeitava uma pilha de folhas batendo-as contra a mesa.
— Sim, senhor.
Ele leu a carta enquanto eu o observava.
Talvez.
Não.
No final das contas, não. Ele queria fazer de mim um homem, não uma máquina.
Bufando, ele amassou o papel e o atirou no lixo.
— Malditos rebeldes.


Passei a maior parte da manhã seguinte trabalhando em meus aposentos, longe de olhares curiosos. Eu me sentia muito mais produtivo quando ficava sozinho. E se não conseguisse ser produtivo, ao menos não havia quem me castigasse. Suspeitei que aquilo não duraria o dia inteiro diante do chamado que recebi.
— O senhor me chamou? — perguntei ao cruzar a porta do gabinete de meu pai.
— Aí está você — ele disse com os olhos arregalados. Esfregou as mãos e continuou: — Amanhã é o grande dia.
Tomei fôlego.
— Sim. Precisamos repassar o formato do noticiário?
— Não, não — ele apoiou a mão nas minhas costas, fazendo com que me endireitasse imediatamente, e me conduziu em frente. — Será bastante simples: introdução, um papo rápido com Gavril e depois transmitimos os nomes e os rostos das moças.
Concordei com a cabeça.
— Parece... fácil.
Quando nos aproximamos da escrivaninha, ele pôs a mão sobre uma grossa pilha de pastas.
— Aqui estão elas.
Olhei para baixo. Encarei a pilha. Engoli em seco.
— Agora, mais ou menos umas vinte e cinco entre elas possuem qualidades evidentemente perfeitas para uma nova princesa. Famílias excelentes, laços valiosos com outros países. Algumas são apenas exuberantes.
Estranhamente, ele me deu uma cotovelada brincalhona no peito, e me afastei para o lado. Nada daquilo era brincadeira.
— Infelizmente, nem todas as províncias tinham algo digno de nota a oferecer. Então, para que as coisas parecessem mais aleatórias, incluímos essas regiões para dar um pouco mais de diversidade à Seleção. Você verá que temos até algumas Cinco no pacote. Nada abaixo disso, porém. Precisamos ter alguns parâmetros.
Repeti mentalmente suas palavras. Todo esse tempo eu pensei que a escolha seria feita pelo acaso ou então pelo destino... E era apenas o meu pai.
Ele correu o polegar pela pilha com tanta força que as bordas das pastas se curvaram para cima.
— Quer dar uma espiada? — propôs.
Olhei novamente para a pilha. Nomes, fotos e qualidades. Todos os detalhes essenciais estavam ali. Ainda assim, eu sabia que o formulário não dizia o que as fazia rir ou pôr para fora seus segredos mais obscuros. Ali estava uma compilação de atributos, não de pessoas. E, com base naquelas estatísticas, eram minhas únicas opções.
— Foi você quem as escolheu? — perguntei, desviando o olhar da papelada e encarando-o.
— Sim.
— Todas elas?
— Basicamente — disse com um sorriso. — Como falei, há algumas aí apenas pelo espetáculo, mas acho que você tem uma leva bastante promissora. Bem melhor do que a minha.
— Seu pai também escolheu as suas opções?
— Algumas delas, mas naquela época a coisa era diferente. Por que pergunta?
Puxei pela memória.
— Então era isso que você queria dizer, não é? Quando falou que a Seleção consumiu anos de trabalho da sua parte?
— Bem, precisávamos garantir que certas garotas teriam a idade adequada, e tínhamos várias opções em certas províncias. Em todo caso, confie em mim, você vai amá-las.
— Vou?
Amá-las? Como se ele se importasse. Como se aquilo não fosse apenas mais uma maneira de a coroa, o palácio e ele próprio prevalecerem.
De repente, seu comentário infeliz sobre Daphne ser um desperdício fez sentido. Para ele, não importava se eu era próximo de Daphne por ela ser encantadora ou uma boa companhia; para ele, ela era a França. Não era sequer um ser humano.
E como meu pai já tinha o que precisava da França, Daphne era inútil aos seus olhos. Ainda assim, se ela tivesse se mostrado valiosa, estou certo de que ele jogaria fora toda aquela amada tradição para obter seus fins. Mas como isso não aconteceu, ele quis manter todo o processo em suas mãos.
Ele soltou um suspiro.
— Que cara é essa? Pensei que você fosse ficar entusiasmado. Não quer nem dar uma olhadinha?
Endireitei o paletó e respondi:
— Como você disse, não é hora de ficar sonhando acordado. Verei as garotas junto com todos os demais. Com a sua licença, preciso terminar de ler seu projeto de emenda.
Parti sem esperar sua aprovação, mas tinha certeza de que minha resposta era justificativa suficiente para que me deixasse sair.
Talvez não fosse exatamente uma sabotagem, mas com certeza parecia uma armadilha. Encontrar uma garota de quem eu gostasse de verdade entre as dúzias que ele escolheu a dedo? Qual era a chance de isso acontecer?
Tentei me acalmar. Afinal, ele escolhera a minha mãe, e ela é uma mulher maravilhosa, linda e inteligente. Mas isso aconteceu aparentemente sem tanta interferência. Mas as coisas eram diferentes agora, segundo ele.
Entre as palavras de Daphne, as intromissões do meu pai e meus próprios medos, cada vez maiores, passei a lamentar a Seleção como nunca.

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