segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 2

As pessoas acabaram ficando na festa por muito mais tempo do que me parecia apropriado. Outro sacrifício que vinha com o privilégio, pensei: ninguém queria que uma festa no palácio acabasse. Nem o próprio palácio queria.
Deixei o representante da Federação Alemã, que estava bastante bêbado, aos cuidados de um guarda, agradeci todos os conselheiros reais pelos presentes e beijei a mão de quase todas as damas que cruzaram as portas do palácio. A meu ver, tinha cumprido minha obrigação, e só queria passar umas horas em paz. Só que um par de olhos azul-escuros me interrompeu enquanto eu tentava escapar dos foliões retardatários.
— Você tem me evitado — afirmou Daphne, com a voz brincalhona e um sotaque cantado que me fazia cócegas no ouvido. Sempre havia um quê musical em suas palavras.
— Nem um pouco. É que havia bem mais gente do que eu esperava — repliquei, olhando para trás, vendo o punhado de gente decidida a ver o sol nascer pelas janelas do palácio.
— Seu pai gosta de espetáculos.
Caí no riso. Daphne parecia compreender várias coisas que eu nunca havia dito em voz alta. Quanto de mim ela compreendia sem que eu me desse conta?
— Acho que ele se superou — comentei.
— Só até a próxima festa — ela respondeu, dando de ombros.
Permanecemos calados por uns instantes, embora eu sentisse que ela queria falar mais. Mordendo os lábios, sussurrou:
— Poderia falar com você em particular?
Concordei, oferecendo-lhe meu braço, e a conduzi até uma das saletas no final do corredor. Ela permanecia quieta, como se guardasse as palavras para depois que eu tivesse fechado as portas atrás de nós. Apesar de já termos conversado a sós muitas vezes, seu comportamento estava me deixando apreensivo.
— Você não dançou comigo — ela disse, parecendo magoada.
— Não dancei com ninguém.
Meu pai tinha insistido em músicos eruditos dessa vez. Embora os Cinco fossem muito talentosos, a música que tocavam pedia danças mais lentas. Talvez, se eu tivesse optado por dançar, teria escolhido Daphne. Só que me parecia errado fazer isso enquanto todos me perguntavam sobre a minha futura e desconhecida esposa.
Ela respirou bem fundo e começou a andar em círculos.
— Tenho um encontro assim que voltar para casa — disse. — Frederick é o nome dele. Já o vi antes, claro. Cavalga muito bem e também é muito bonito. É quatro anos mais velho, mas acho que esse é exatamente um dos motivos para meu pai gostar dele.
Ela olhou para mim por cima do ombro com um sorrisinho nos lábios.
Respondi com um ar sarcástico:
— E onde estaríamos nós sem a aprovação dos nossos pais?
Ela achou graça.
— Perdidos, é óbvio. Não faríamos ideia de como viver.
Também ri, grato por ter alguém com quem fazer piada da situação. Às vezes, essa era a única maneira de lidar com a pressão.
— Mas então, meu pai aprova. Ainda assim, fico pensando...
Ela baixou os olhos, tomada por uma timidez súbita.
— Em quê?
Daphne permaneceu imóvel por um segundo, ainda com o olhar no carpete. Até que cravou aqueles olhos azul-escuros em mim.
— Você é a favor?
— A favor do quê?
— De Frederick.
Comecei a rir.
— Não dá para falar, dá? Não o conheço.
— Não — ela disse, desanimada. — Não a pessoa, mas a ideia. Você concorda que eu me encontre com esse homem? Que no fim me case com ele?
O rosto de Daphne ficou imóvel, como se escondesse algo que eu ainda não entendia. Respondi um pouco conformado e confuso:
— Não cabe a mim aprovar. Tampouco cabe a você — afirmei, um pouco triste por nós dois.
Daphne esfregava as mãos, talvez nervosa ou magoada. Eu era incapaz de entender o que estava acontecendo.
— Então você não se incomoda nem um pouco? Porque se não for Frederick, será Antoine. Se não for Antoine, será Garron. Há uma fila de homens à minha espera, e nenhum deles tem comigo metade da amizade que tenho com você. Mas, no final, terei que aceitar um deles como marido. E você não se importa?
Era realmente deprimente. Dificilmente nos víamos mais do que três vezes por ano. E eu também a considerava minha melhor amiga. Como nós éramos patéticos!
Engoli em seco, procurando a melhor coisa a dizer.
— Tenho certeza de que no final tudo vai dar certo.
Sem qualquer aviso, as lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Daphne. Olhei à minha volta, na tentativa de encontrar uma explicação ou solução, e me sentia mais desconfortável a cada momento.
— Por favor, Maxon, diga que você não se submeterá a isso. Você não pode — implorou.
— Do que você está falando? — perguntei, desesperado.
— Da Seleção! Por favor, não se case com uma estranha qualquer. Não me faça casar com um estranho qualquer.
— É minha obrigação. É assim que funciona para os príncipes de Illéa. Casamos com plebeias.
Daphne se lançou contra mim e agarrou as minhas mãos.
— Mas eu te amo. Sempre amei. Por favor, não se case com outra garota sem ao menos perguntar ao seu pai se eu podia ser uma opção.
Sempre me amou?
Engasguei com as palavras. Tentava descobrir por onde começar.
— Daphne, como... Não sei o que dizer.
— Prometa que você vai perguntar para o seu pai — ela implorou, secando as lágrimas dos olhos, esperançosa. — Adie a Seleção ao menos por tempo suficiente para descobrirmos se vale a pena tentar. Ou me deixe participar também. Eu abro mão da minha coroa.
— Por favor, pare de chorar — sussurrei.
— Não consigo. Não agora que estou prestes a perdê-lo para sempre — disse, antes de enterrar a cabeça entre as mãos e começar a soluçar baixinho.
Fiquei ali, como uma estátua, com medo de piorar as coisas. Após alguns momentos de tensão, Daphne ergueu a cabeça e falou, com olhar perdido:
— Você é a única pessoa que me conhece. A única pessoa que sinto conhecer de verdade.
— Conhecer não é amar — repliquei.
— Não é verdade, Maxon. Temos uma história juntos, e ela está prestes a ser destruída. Tudo em nome da tradição.
Daphne continuava com os olhos fixos no centro da sala, e eu continuava sem fazer ideia do que ela estava pensando.
Era evidente que eu não costumava prestar atenção em seus pensamentos.
Por fim, Daphne virou o rosto para mim.
— Maxon, eu suplico, peça ao seu pai. Mesmo que ele diga não, ao menos eu tentei tudo o que podia.
Certo de que a minha resposta era a mais pura verdade, disse-lhe o que precisava ser dito:
— Você já tentou, Daphne. Acabou.
Cruzei os braços por um instante e depois soltei-os.
— Isso é tudo que nossa história poderia ser — acrescentei.
Seus olhos ficaram um bom tempo cravados nos meus.
Ela sabia tão bem quanto eu que um pedido tão escandaloso estava muito além das minhas possibilidades. Percebi que ela buscava em sua mente um caminho alternativo, mas não havia saída. Ela servia à sua coroa; eu, à minha. E nossas dinastias nunca se cruzariam.
Concordando com a cabeça, ela desabou em lágrimas mais uma vez. Caminhou até o sofá e sentou, abraçando a si mesma.
Fiquei parado na tentativa de não agravar seu sofrimento.
Queria poder fazê-la rir, mas não havia qualquer graça na situação. Não sabia que era capaz de partir um coração. Com certeza, não gostei de saber.
Foi então que me dei conta de que isso logo se tornaria comum. Eu dispensaria trinta e quatro mulheres ao longo dos próximos meses. E se todas reagissem assim?
Bufei de cansaço só de pensar.
Ao me ouvir, ela ergueu o olhar. Aos poucos, a expressão em seu rosto mudou.
— Isso não te magoa nem um pouco? — perguntou. — Você não é um ator tão bom assim, Maxon.
— É claro que me incomoda.
Daphne se levantou e começou a me examinar, em silêncio.
— Mas não pelas mesmas razões que me incomodam — ela disse baixinho.
Ela caminhava pela sala, com olhos suplicantes.
— Maxon, você me ama.
Permaneci calado.
— Maxon — ela afirmou, enfática — você me ama. Ama.
Desviei o rosto; a intensidade do brilho em seus olhos era forte demais para mim. Passei a mão pelo cabelo enquanto tentava colocar em palavras o que quer que eu sentia.
— Nunca vi alguém expressar seus sentimentos como você acabou de fazer. Não duvido da sinceridade de cada uma de suas palavras. Só que não consigo dizer o mesmo, Daphne.
— Isso não te impede de sentir. Você só não sabe como expressar. Seu pai pode ser frio como o gelo, e sua mãe esconde-se em si mesma. Você nunca viu as pessoas amarem livremente, e por isso não sabe demonstrar amor. Mas você sente. Sei que sente. Você me ama como eu amo você.
Balancei a cabeça devagar, temendo que qualquer sílaba que saísse da minha boca trouxesse tudo à tona novamente.
— Me beije — ela ordenou.
— Quê?
— Me beije. Se você for capaz de me beijar e ainda assim dizer que não me ama, nunca mais tocarei no assunto.
Recuei.
— Não. Sinto muito, mas não posso fazer isso.
Não quis confessar o quão literais eram minhas palavras. Não sabia ao certo quantos garotos Daphne já beijara, mas tinha certeza de que mais que zero. Ela deixou escapar que fora beijada há um par de verões, quando estive na França em sua companhia. Bastava. Ela tinha mais experiência, e de maneira nenhuma eu iria bancar ainda mais o idiota naquele momento.
Sua tristeza transformou-se em raiva à medida que se afastou de mim. Ela chegou a rir, mas não havia sinal de humor em seus olhos.
— Então essa é a sua resposta? Você está dizendo não? Você prefere deixar que eu vá?
Encolhi os ombros.
— Você é um idiota, Maxon Schreave. Seus pais sabotaram completamente sua personalidade. Mesmo que você tivesse mil garotas diante dos seus olhos, não importaria. Você é burro demais para reconhecer o amor a dois palmos do nariz.
Ela secou os olhos e ajeitou o vestido.
— Rezo a Deus para nunca mais ver seu rosto novamente.
O medo no meu coração se transformou e, quando ela começou a sair, agarrei-a pelo braço. Não queria que partisse para sempre.
— Daphne, sinto muito.
— Não sinta muito por mim — ela disse friamente. — Sinta muito por você. Você encontrará uma esposa porque é obrigado a isso, mas você já conheceu o amor e o deixou partir.
Ela soltou a mão num puxão e me deixou sozinho.
Parabéns para mim.

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