segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 1

Eu andava em círculos, como se isso pudesse aliviar a tensão do meu corpo. A Seleção parecia emocionante quando estava lá longe – uma possibilidade futura. Mas agora? Bem, eu já não tinha tanta certeza.
Censo compilado, números checados múltiplas vezes. Os funcionários do palácio estavam sendo realocados, as roupas e os quartos das novas hóspedes já estavam sendo preparados.
A pressão crescia, empolgante e assustadora ao mesmo tempo.
Para as garotas, o processo começara com o preenchimento dos formulários – milhares a esta altura. Para mim, começou hoje.
Completei dezenove anos. Agora, eu podia participar.
Parei diante do espelho e conferi a gravata mais uma vez. Naquela noite haveria mais olhos sobre mim do que o normal; eu precisava parecer o príncipe autoconfiante que todos esperavam. A gravata estava impecável, e eu segui para o escritório do meu pai.
No caminho, acenei com a cabeça para os assessores e guardas conhecidos. Era difícil imaginar que em menos de duas semanas os corredores estariam abarrotados de garotas.
Bati de maneira firme na porta, uma requisição feita pelo meu próprio pai. Parecia que eu sempre tinha uma lição a aprender.
Bata com autoridade, Maxon. Pare de andar em círculos, Maxon. Você tem que ser mais rápido, mais esperto e melhor, Maxon.
— Entre.
Entrei. Meu pai desviou os olhos do espelho por um instante para me observar.
— Ah, que bom que você chegou. Sua mãe virá logo. Está preparado?
— Claro — respondi. Era a única resposta plausível.
Ele esticou o braço e apanhou uma pequena caixa, que pôs na minha frente, sobre sua escrivaninha.
— Feliz aniversário.
Desfiz o embrulho prateado e dei com uma caixinha preta.
Dentro dela, um par de abotoaduras novas. Provavelmente ele estava atarefado demais para se lembrar de que já havia me dado abotoaduras no Natal. Ou então eram os ossos do ofício. Quando eu fosse rei, talvez também desse um presente repetido para o meu filho sem querer. Mas é claro que, para chegar a esse ponto, primeiro precisava de uma esposa.
Esposa. A palavra pendeu dos meus lábios por um instante, sem chegar a sair. Soava estranha.
— Obrigado, senhor. Vou usá-las agora mesmo.
— Você precisa dar o seu melhor esta noite — ele disse, afastando-se do espelho. — Todos estão com a Seleção na cabeça.
Dei um sorriso tenso.
— Eu também estou.
Pensei em contar a ele como estava ansioso. Ele já havia passado por isso, afinal. Deve ter tido suas próprias dúvidas naquela época.
Mas é claro que o nervosismo estava estampado na minha cara.
— Ânimo, Maxon. A ideia é que seja emocionante — ele me incentivou.
— E é. Só estou impressionado com a rapidez com que tudo tem acontecido — respondi enquanto me concentrava em passar o metal manga da camisa.
— Parece rápido para você, mas para mim foram anos de preparação — ele disse, rindo.
Apertei os olhos e o encarei.
— Como assim?
A porta se abriu e minha mãe entrou. Como sempre, o rosto do meu pai se iluminou com a sua presença.
— Amberly, você está estonteante — elogiou, caminhando para cumprimentá-la.
Ela sorriu com seu jeito de sempre, como se não acreditasse que alguém havia reparado nela, e abraçou meu pai.
— Não estonteante demais, espero. Não quero roubar a atenção.
Ela se afastou do meu pai e veio na minha direção.
— Feliz aniversário, filho.
— Obrigado, mãe.
— Seu presente vai chegar — sussurrou, e depois se dirigiu ao meu pai. — Estamos todos prontos, então?
— Sim, certamente — respondeu meu pai, oferecendo-lhe o braço, que ela agarrou. Eu caminhei à sombra deles.
Como sempre.
— Quanto tempo teremos, Alteza? — um repórter me perguntou.
A luz dos refletores queimava meu rosto.
— Os nomes serão sorteados nesta sexta-feira, e as garotas chegarão na sexta seguinte — respondi.
— Está nervoso, senhor? — outra voz indagou.
— Porque vou me casar com uma moça que ainda nem conheço? Tudo sob controle — respondi, com uma piscadela que fez a plateia rir.
— Mas isso não o deixa nem um pouco nervoso, Alteza?
Desisti de tentar identificar o rosto do meu interlocutor. Apenas respondi na direção de onde veio a pergunta.
— Pelo contrário. Estou muito empolgado.
Mais ou menos.
— Sabemos que fará uma excelente escolha, senhor.
O flash de uma câmera me cegou.
— Aqui, aqui! — outros chamavam.
Dei de ombros.
— Não sei. Qualquer garota que se contentar comigo só poderá ser louca.
Todos riram mais uma vez, e essa frase me pareceu uma boa deixa para ir embora.
— Com licença. Alguns parentes estão aqui de visita e não quero ser indelicado.
Dei as costas para os jornalistas e fotógrafos e respirei fundo. Será que a noite inteira seria assim?
Corri os olhos pelo Grande Salão – toalhas azul-marinho cobriam as mesas e velas brilhavam forte para realçar o esplendor da decoração – e vi que não tinha muita escapatória.
Em um canto do salão estavam as autoridades; no outro, os jornalistas. Nenhum lugar para eu ficar quieto e tranquilo. Como eu era o aniversariante, alguém poderia pensar que eu seria o responsável por definir como tudo aconteceria. Mas não era desse modo que as coisas funcionavam.
Assim que me desvencilhei da multidão, senti o braço do meu pai nas minhas costas e a sua mão a apertar meu ombro.
Aquela pressão e aquela atenção súbita me deixavam tenso.
— Sorria — ele ordenou, sem mover os lábios.
Obedeci, e ele virou a cabeça na direção de alguns de seus convidados especiais.
Percebi o olhar de Daphne, que viera da França junto com o pai. Tivemos sorte: a data da festa coincidiu com a necessidade de nossos pais continuarem as discussões sobre um tratado comercial. Sendo ela filha do rei da França, nossos caminhos já haviam se cruzado algumas vezes, e talvez ela fosse a única pessoa fora da minha família com quem eu tinha um pouco de intimidade. Era bom ver um rosto conhecido no salão.
Acenei com a cabeça, e ela ergueu sua taça de champanhe.
— Você não pode ser tão sarcástico em suas respostas. Você é o príncipe-herdeiro. Nós precisamos da sua liderança.
A mão do meu pai apertava meu ombro mais do que o necessário.
— Perdoe-me, senhor. É uma festa. Pensei que...
— Pensou errado. Espero que na hora do noticiário você leve as coisas mais a sério.
Ele parou de andar e me encarou com seus olhos cinzentos e firmes.
Sorri mais uma vez, sabendo que ele me pedia aquilo por causa da multidão.
— Claro, senhor. Foi um lapso de julgamento temporário.
Ele abaixou o braço e levou a taça de champanhe aos lábios.
— Você costuma ter muitos.
Arrisquei lançar um olhar de enfado a Daphne, que riu, pois sabia muito bem como eu me sentia. Os olhos do meu pai seguiram meu olhar pelo salão.
— Sempre muito bonita essa garota. Pena que não pode participar do sorteio.
Dei de ombros.
— Ela é simpática, mas nunca senti nada por ela.
— Que bom. Seria uma estupidez sem tamanho da sua parte.
Ignorei a maldade do comentário e continuei:
— Além do mais, mal posso esperar para conhecer minhas verdadeiras opções.
Meu pai vibrou com a ideia e voltou a me conduzir pelo salão.
— Já é hora de você fazer algumas escolhas reais na vida, Maxon. Escolhas boas. Tenho certeza de que você acha que meus métodos são rígidos demais, mas preciso que você enxergue a importância de sua posição.
Segurei um suspiro. Eu tento fazer escolhas. Você é que não confia em mim.
— Não se preocupe, pai. Levo muito a sério a tarefa de escolher uma esposa — respondi, na esperança de que o tom da minha voz confirmasse o quanto aquilo era verdade.
— Vai além de encontrar alguém com quem você se dê bem. Por exemplo, você e Daphne. Muito amiguinhos, mas ela seria um completo desperdício — ele comentou antes de outro gole, e acenou para alguém que estava atrás de mim.
Mais uma vez, tive que controlar minha expressão. Desconfortável com o rumo da conversa, meti as mãos nos bolsos e inspecionei o salão.
— Acho melhor começar a circular pelas mesas.
Ele fez que sim com a mão e voltou a concentrar-se em sua bebida. Aproveitei para me retirar rápido. Por mais que tentasse, não conseguia entender o que ele queria com aquela conversa. Não havia motivo para ele ser tão grosseiro sobre Daphne se ela sequer era uma opção.
O Grande Salão reverberava de entusiasmo. As pessoas diziam que toda a Illéa esperava por aquele momento: a emoção de uma nova princesa, a empolgação de ver que em breve eu seria rei. Pela primeira vez, eu sentia toda aquela energia e receava que ela fosse me esmagar.
Apertei diversas mãos e aceitei com elegância presentes de que não precisava. Perguntei discretamente a um fotógrafo sobre as lentes de sua câmera. Beijei as bochechas de familiares, amigos e de uma boa parcela de completos estranhos.
Por fim tive um momento sozinho. Inspecionava a multidão, certo de que havia algum lugar onde eu deveria estar. Meu olhar parou em Daphne, que veio em minha direção. Estava ansioso para ter pelo menos alguns minutos de conversa sincera, mas isso teria que esperar.
— Está se divertindo? — minha mãe perguntou, ao se aproximar.
— O que parece?
Ela correu as mãos pelo meu terno já meio amarrotado.
— Que sim.
Abri um sorriso.
— É o que importa.
Ela inclinou a cabeça levemente, com um sorriso terno nos lábios.
— Venha comigo por um minuto.
Ofereci o braço a ela, que aceitou com alegria, e caminhamos pelo corredor ao som dos cliques das câmeras.
— Podemos fazer algo menor no ano que vem?
— Pouco provável. É quase certo que você já estará casado. Sua esposa talvez queira uma comemoração bem sofisticada para o primeiro ano de vocês juntos.
Franzi a testa, uma liberdade que podia ter na frente dela.
— Talvez ela também goste de tranquilidade.
Minha mãe soltou uma risada mansa.
— Desculpe-me, querido, mas uma garota que se inscreve na Seleção quer um jeito de sair da tranquilidade.
— Você também? — pensei em voz alta.
De fato, nunca tínhamos falado sobre a chegada dela ao palácio. Havia uma fronteira estranha entre nós. Uma fronteira que eu apreciava: fui criado no palácio, mas minha mãe havia escolhido vir para cá.
Ela parou e me encarou, com uma expressão calorosa.
— Fiquei encantada com o rosto que vi na TV. Sonhava acordada com seu pai, assim como milhares de garotas agora sonham com você.
Imaginava minha mãe jovem, em Hondurágua, com o cabelo trançado nas costas e o olhar ansioso fixo no televisor. Podia vê-la suspirar a cada palavra dele.
— Todas as meninas imaginam como é a vida de uma princesa — prosseguiu. — Se apaixonar perdidamente, usar uma coroa... Eu só conseguia pensar nisso na semana anterior à divulgação dos nomes. Não fazia ideia de que ia muito além.
O rosto dela ficou um pouco triste.
— Nem imaginava a pressão a que estaria submetida ou como teria pouca privacidade. Ainda assim, ser casada com seu pai e ter você como filho... é a realização de todos aqueles sonhos — concluiu, acariciando minha bochecha.
Ela mantinha os olhos nos meus e sorria, mas pude notar lágrimas brotando. Precisava puxar algum assunto.
— Então você não se arrepende?
Ela balançou a cabeça.
— Nem um pouco. A Seleção mudou a minha vida, e da melhor maneira possível. E é sobre isso que quero falar com você.
Arregalei os olhos.
— Não sei se estou entendendo.
Ela soltou um suspiro.
— Eu era Quatro. Trabalhava em uma fábrica.
Ela estendeu as mãos, com as palmas para cima, e continuou:
— Meus dedos eram secos e rachados. A sujeira se acumulava debaixo das unhas. Não tinha boas conexões nem status. Nada me fazia digna de ser princesa. E, no entanto, aqui estou.
Encarei-a, ainda sem saber ao certo o que ela queria.
— Maxon, este é o meu presente para você: prometo me esforçar para ver essas garotas através dos seus olhos. Não com os olhos de rainha ou de mãe, mas com os seus. Mesmo que você escolha uma moça de uma casta bem inferior, mesmo que os outros pensem que ela não tem valor, sempre escutarei seus motivos para querê-la. E farei o máximo para apoiá-lo em sua decisão.
Fiquei parado por um momento até compreender.
— O meu pai não teve esse apoio? Você não teve?
Minha mãe não respondeu diretamente.
— Toda moça que vier terá seus prós e contras. Algumas pessoas irão enfatizar o que há de pior em algumas de suas opções, e o que há de melhor nas outras. Essa intolerância não fará o menor sentido para você, mas eu estarei ao seu lado, independentemente da sua escolha.
— Você sempre está.
— Verdade — afirmou tomando-me o braço. — Sei que estou prestes a ficar em segundo plano em relação a outra mulher. Mas meu amor por você nunca vai mudar, Maxon.
— Nem o meu por você.
Esperava que ela pudesse notar a sinceridade na minha voz. Era incapaz de imaginar uma circunstância que ofuscasse minha completa adoração por ela.
— Eu sei — disse, e com um gesto suave nos guiou de volta para a festa.
Enquanto éramos recebidos por sorrisos e aplausos no salão, eu pensava nas palavras da minha mãe. Ela era, mais do que qualquer um que eu conhecia, incrivelmente generosa – uma qualidade que eu me empenharia em adquirir. Assim, aquele presente devia ser mais necessário do que eu podia imaginar naquele momento. Minha mãe nunca me deu um presente que não fosse bem pensado.

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