segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 4

Faltavam apenas cinco minutos para o meu futuro se desenrolar diante dos meus olhos, e eu estava prestes a vomitar a qualquer momento.
Uma maquiadora muito gentil secava o suor da minha testa.
— O senhor está bem? — perguntou enquanto agitava o lenço.
— Estou apenas chateado porque nenhum dos tons de batom que você tem ali combina comigo.
Minha mãe às vezes dizia: “não é meu tom”. Não sabia bem o que significava aquilo.
Ela achou graça, assim como minha mãe e sua maquiadora.
— Acho que estou bem — falei à moça, ao me olhar no conjunto de espelhos atrás do estúdio. — Obrigado.
— Eu também — minha mãe disse, e com essas palavras as duas maquiadoras se retiraram.
Eu brincava com um dos potinhos de maquiagem na tentativa de não pensar sobre o que se aproximava.
— Maxon, meu amor, você está bem mesmo? — minha mãe perguntou sem olhar para mim, vendo meu reflexo no espelho.
Devolvi o olhar.
— É só... que...
— Eu sei. É estressante para qualquer um, mas no fim das contas, é só ouvir os nomes de um punhado de garotas. Apenas isso.
Respirei fundo e fiz que sim com a cabeça. Era uma maneira diferente de encarar as coisas: nomes. Era esse o acontecimento do dia. Uma lista de nomes, nada mais.
Respirei fundo outra vez.
Ainda bem que eu não tinha comido muito naquele dia.
Dei meia-volta e caminhei até meu assento no estúdio, onde meu pai já me aguardava.
Ele balançou a cabeça.
— Recomponha-se. Você parece péssimo.
— Como você conseguiu passar por isto? — perguntei em tom de súplica.
— Encarei tudo com confiança, porque eu era o príncipe. E você fará o mesmo. Por acaso preciso lembrá-lo de que você é o prêmio?
Seu rosto manifestava o mesmo enfado de antes, como se eu já devesse ter entendido a situação.
— São elas que competem por você — continuou. — Não o contrário. Nada mudará em sua vida, apenas terá de lidar com um punhado de garotas eufóricas por algumas semanas.
— E se eu não gostar de nenhuma?
— Então escolha a que odiar menos. De preferência, alguma que seja útil. Não se preocupe quanto a isso. Vou ajudá-lo.
Se a intenção dele era me tranquilizar, não deu certo.
— Dez segundos — veio o anúncio.
Minha mãe tomou seu assento e deu uma piscadela reconfortante.
— Lembre-se de sorrir — meu pai pediu, e se virou para as câmeras com ar confiante.
De repente, o hino estava tocando e eu ouvia as pessoas falarem. Tinha consciência de que devia prestar atenção, mas todo o meu esforço se concentrava em manter uma expressão calma e alegre.
Não entendi muita coisa até escutar a voz familiar de Gavril.
— Boa noite, Majestade — cumprimentou, e senti um frio na barriga até me dar conta de que ele se dirigia ao meu pai.
— Gavril, é sempre um prazer vê-lo.
— Ansioso por causa do anúncio, Majestade?
— Ah, sim. Ontem estive no salão onde o sorteio foi realizado e vi algumas das escolhidas. São todas adoráveis.
Meu pai agia tão naturalmente, tão à vontade.
— Então Vossa Majestade já sabe quem são? — perguntou Gavril, eufórico.
— Só algumas, só algumas.
Uma mentira completa tirada da manga com uma facilidade incrível.
— Por acaso ele compartilhou essas informações com Vossa Alteza?
Agora Gavril falava comigo. A luz refletida em seu broche piscava à medida que ele gesticulava.
Meu pai se virou para mim, pedindo com os olhos para que eu sorrisse. Foi o que fiz, e respondi:
— Não, de jeito nenhum. Vou conhecê-las ao mesmo tempo que as pessoas em casa.
Droga. Deveria ter dito vou conhecer as senhoritas, não conhecê-las. Elas eram hóspedes, não animais de estimação. Mereciam destaque. Sequei discretamente o suor das mãos nas calças.
— Majestade — Gavril voltou-se para a Rainha — algum conselho para as Selecionadas?
Observei minha mãe. Quanto tempo levou para ela adquirir tanta compostura e ficar tão impecável? Será que sempre foi assim? Com um único gesto ela era capaz de derreter até Gavril.
— Aproveitem a última noite como uma garota normal. Amanhã, independentemente do que virá, a vida de vocês mudará para sempre. E um conselho antigo, mas valioso: sejam vocês mesmas.
— Sábias palavras, minha rainha, sábias palavras. E agora vamos revelar as trinta e cinco jovens escolhidas para a Seleção. Senhoras e senhores, unam-se às minhas felicitações para as seguintes filhas de Illéa!
Observei os monitores. O emblema nacional apareceu na tela e um pequeno quadrado no canto mostrava meu rosto ao vivo. O quê?! Minhas reações seriam vistas o tempo todo?
Minha mãe segurou a minha mão, fora do ângulo da câmera.
Inspirei. Expirei. Inspirei de novo.
Só um bocado de nomes. Nada de mais. Não é como se estivessem anunciando uma garota só e pronto.
— Senhorita Elayna Stoles, de Hansport, Três.
Gavril lia os nomes em uma ficha, enquanto eu me empenhava em abrir mais o sorriso.
— Senhorita Tuesday Keeper, de Waverly, Quatro — continuou.
Ainda com cara de eufórico, eu me inclinei para meu pai.
— Estou passando mal — cochichei.
— Apenas respire — ele respondeu entre os dentes. — Você devia ter olhado ontem. Eu sabia.
— Senhorita Fiona Castley, de Paloma, Três.
Olhei para minha mãe, que sorriu:
— Muito bonita — comentou.
— Senhorita America Singer, de Carolina, Cinco.
Ouvi a palavra Cinco e me dei conta de que aquela era uma das escolhas aleatórias do meu pai. Nem consegui ver a foto, já que o meu plano era apenas olhar na direção dos monitores e sorrir.
— Senhorita Mia Blue, de Ottaro, Três.
Era muita coisa para absorver. Memorizaria seus nomes e rostos mais tarde, quando a nação inteira não estivesse vendo.
— Senhorita Celeste Newsome, de Clermont, Dois.
Levantei as sobrancelhas, mesmo sem ver a foto dela. Se era Dois, devia ser uma das importantes, então eu precisava parecer impressionado.
— Clarissa Kelley, de Belcourt, Dois.
Sustentei o sorriso enquanto a listagem avançava, a ponto de minhas bochechas doerem. Só conseguia pensar o quanto aquilo era importante para mim – uma grande parte da minha vida estava tomando rumo agora – e eu não conseguia me sentir feliz. Se eu mesmo tivesse sorteado os nomes de um saco em uma sala fechada e visse seus rostos sozinho, antes dos demais, as coisas seriam muito diferentes.
Aquelas garotas seriam minhas, a única coisa no mundo que poderia me dar essa sensação.
Mas elas não eram.
— Aí estão elas! — anunciou Gavril. — Essas são as nossas belas candidatas para a Seleção. Ao longo da próxima semana, elas serão preparadas para a viagem ao palácio, e todos aguardaremos ansiosos por essa chegada. Sintonizem no noticiário da semana que vem, uma edição especial dedicada exclusivamente a apresentar essas mulheres espetaculares. Príncipe Maxon — ele disse, voltando-se para mim — meus parabéns. São jovens estonteantes.
— Estou sem palavras — comentei, absolutamente sincero.
— Não se preocupe, senhor. Estou certo de que as garotas irão falar muito quando chegarem na próxima sexta-feira.
Gavril então encarou a câmera e exclamou:
— E você em casa, não se esqueça de ficar ligado nas últimas notícias da Seleção aqui, no canal da rede pública. Boa noite, Illéa!
Tocaram o hino, apagaram as luzes, e eu finalmente pude relaxar.
Meu pai se levantou e deu uma palmada firme nas minhas costas.
— Bom trabalho. Você se saiu infinitamente melhor do que eu esperava.
— Não faço ideia do que aconteceu.
Ele riu, junto com um punhado de conselheiros que permaneciam no estúdio.
— Eu disse, filho, você é o prêmio. Não há motivo para estresse. Não concorda, Amberly?
— Garanto, Maxon, que as moças têm muito mais com que se preocupar do que você — minha mãe confirmou, acariciando meu braço.
— Exatamente — meu pai disse. — Estou morrendo de fome. Vamos desfrutar das nossas últimas refeições tranquilas.
Levantei-me e comecei a caminhar devagar. Minha mãe acompanhou meu passo.
— Que confusão — sussurrei.
— Vamos pegar as fotos e formulários para você estudar à vontade. É como conhecer qualquer outra pessoa. Encare a situação como se você fosse passar o tempo com algum de seus outros amigos.
— Não tenho muitos amigos, mãe.
Ela deu um sorriso compreensivo.
— Eu sei, ficamos um pouco confinados aqui — concordou. — Bem, pense em Daphne.
— O que tem ela? — perguntei, um pouco impaciente.
Minha mãe não notou.
— É uma garota, e vocês sempre foram amigos. Finja que é a mesma coisa.
Olhei para a frente. Sem perceber, minha mãe aliviou um dos grandes medos no meu coração, ao mesmo tempo em que despertou outro.
Desde nossa briga, sempre que pensava em Daphne, não queria saber se ela e Frederick estavam se dando bem ou se eu sentia falta da sua companhia. Só conseguia pensar em suas acusações.
Se eu fosse apaixonado por ela, com certeza estaria pensando em todas as suas qualidades. Ou então, durante o programa, enquanto Gavril anunciava as Selecionadas, eu teria desejado que seu nome aparecesse ali de algum jeito.
Talvez Daphne tivesse razão, e eu era mesmo incapaz de demonstrar amor de verdade. Ainda que fosse o caso, estava cada vez mais certo de que não a amava.
Uma parte de mim se alegrou por saber que eu não estava perdendo uma oportunidade. Poderia começar a Seleção de coração aberto. Só que outro pedaço de mim lamentava. Se eu de fato não tivesse compreendido meus sentimentos, ao menos poderia me gabar de um dia ter amado alguém, de ter conhecido o amor. Mas eu ainda não fazia ideia. Imaginei que essa fosse a intenção desde o início.

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