terça-feira, 2 de agosto de 2016

A chegada

 Só mais alguns minutos, senhorita — o chofer avisou.
Aquela viagem estava demorando uma eternidade. O carro era bacana e tudo, nada do que reclamar quanto a isso, mas eu realmente não suportava a espera. Àquela altura, todas as garotas da Costa Oeste já estavam no palácio ou perto dele. Enquanto isso, eu desperdiçava um tempo precioso seguindo para o aeroporto de Carolina. Por que eu não podia ter partido direto de Clermont? O palácio com certeza tinha dinheiro para pagar voos separados.
Quando entramos na pista para o aeroporto, comecei a juntar minhas coisas; enfiei a escova e as balinhas de volta na bolsa. Quando o carro finalmente parou, conferi o rosto no espelho pela última vez. Esfreguei a pele perto do olho. Aquilo era uma ruga? Não, era só a luz. Ainda assim, se uma sombra era capaz disso, imagine o que mais alguns anos não fariam.
— Senhorita? — o motorista chamou.
Levantei o olhar para ele, ainda me perguntando se eu realmente parecia tão cansada quanto meu reflexo me fazia crer.
— A senhorita se importaria? — ele perguntou ao me estender uma revista aberta na página de um anúncio recente que eu tinha feito para uma coleção de roupas de praia.
Tentei não deixar transparecer meu nojo diante de um homem muito mais velho e gordo basicamente babando em cima de uma foto minha de biquíni. Os sorrisos eram importantes no meu ramo de trabalho, e se eu ia me tornar princesa, precisaria ser adorada por todos. Assim, fiz uma cara simpática ao pegar a revista da mão dele.
— Obrigado. Minha filha é uma grande fã sua.
— É? — perguntei, aliviada por ser para ela.
— É, ela é linda e estuda esses anúncios mais do que estuda matemática para a escola. Ela quer muito ser modelo.
Estreitei os olhos.
— Mas se você é motorista, ela deve ser uma Seis?
— É — ele confirmou, como se sua condição fosse segredo. Nenhuma era. — Temos esperança de casá-la com alguém de casta mais alta, mas não acho que vamos chegar num Dois. Mas ela cruza os dedos e trabalha duro, caso isso venha a acontecer.
Não perguntei quais eram os planos dele. Às vezes envolviam homens atrás de uma esposa para se exibir. Às vezes envolviam o pagamento de altas somas de dinheiro – embora menos do que a compra de uma nova casta custaria. E em embora raras ocasiões, envolviam amor. Achei que não era esse o caso da filha dele, e nem me importava.
— Muito bem, então vou fazer uma dedicatória especial para ela.
Rabisquei as palavras “Não desista dos seus sonhos!”, tomando cuidado para não cobrir minha imagem, e em seguida assinei meu nome em grande estilo ao pé da página.
— Aqui está — eu disse. — Diga a ela que desejo boa sorte.
— Vou dizer! Muita sorte para a senhorita, também — ele me desejou quando saí do carro.
A sorte ia bem, obrigada, mas eu não precisava dela. Eu tinha um plano.
Baixei os óculos escuros e ajeitei a margarida no cabelo. Era ali que tudo começava para mim: aquela era minha primeira oportunidade de mostrar às outras garotas que elas estavam diante da futura rainha.
Eu conhecia as concorrentes, e era a única Dois relevante na disputa. Algumas das outras talvez fossem mais ricas, mas eu tinha um público que me adorava, o que a monarquia não podia desprezar. E alguém abaixo de Dois? Bom, só estaria perdendo tempo.
Abri a porta e adentrei o aeroporto com classe. Foi bem fácil reconhecer as outras garotas, que também vestiam calças escuras e camisas brancas, então caminhei em linha reta até da elas. Por trás dos óculos escuros, pude notar que a chegada impactante já tinha começado a surtir efeito. Ashley, a Três, parecia desolada só pela minha presença, e Marlee, a Quatro, parecia igualmente hipnotizada. Ah, a Cinco também estava lá! America. Eu sabia que ela estaria no meu grupo já que passaríamos por Carolina, mas fiquei surpresa. Ela parecia bem arrumada.
Tive certeza de que seria divertido observá-la. Simplesmente não havia a menor chance de uma caipira como ela passar sequer o primeiro dia sem se humilhar, quer estivesse arrumada ou não.
— Olá — Marlee cumprimentou, hesitante.
Tirei os óculos escuros e a olhei de cima a baixo. Bem bonita, mas o cabelo parecia fino. E se os olhos sempre tivessem esse ar de preocupação, ela estaria fora em uma semana.
— Quando partimos?
— Não sabemos — America respondeu com um tom surpreendentemente afiado para quem fala com uma superior. — Você estava demorando para aparecer.
Dei uma boa olhada nela também. Gostaria de poder dizer que era feia, mas na verdade era até mais bonita ao vivo do que na foto. Também não era uma coitadinha, o que provavelmente a ajudaria na competição. Talvez America fosse me divertir menos do que imaginava.
— Desculpem, mas muita gente queria se despedir de mim — respondi.
Com certeza ela tentava lembrar onde tinha visto meu rosto antes. Recordar que eu tinha fãs talvez sacudisse a memória dela. — Não pude evitar.
Ela não pareceu me reconhecer. Bom, paciência.
O piloto apareceu e eu o conquistei no ato. Eu não precisava da aprovação daquelas meninas patéticas, mas com certeza queria ganhar a de todas as outras pessoas.  Embarcamos no avião, e ficou bem óbvio que America nunca tinha voado antes. Eu duvidava até que tivesse carro.
Observei Ashley pegar um papel e começar a registrar a experiência, enquanto Marlee fez amizade com America instantaneamente. Por mais luxo que eu tivesse na vida, era difícil competir com um avião particular da realeza, e eu queria fazer inveja a alguém com os assentos de couro e o champanhe delicioso. Havia um telefone ao lado da minha poltrona; eu poderia ligar para alguém. Mas quem? A cabeça de vento da minha mãe? Meu agente? Minha manicure que mal falava inglês?
Não havia ninguém.
Botei a máscara de sono e fingi dormir. Eu estava com a aparência cansada, então o descanso me faria bem.
Fiquei ali, deitada, sonhando com a vida no palácio. Eu seria uma princesa espetacular. Quer dizer, se colocassem Maxon e eu lado a lado, formávamos praticamente uma réplica dos pais dele. E que lindos sairíamos nas nossas fotos juntos... eu já conseguia ver isso acontecendo. Na minha cabeça, eu piscava e lançava um olhar brincalhão para o príncipe por trás de um leque, fazendo com que ele se apaixonasse por mim um pouco mais a cada dia.
— Celeste, por outro lado... — alguém cochichou.
Sem me mover, sintonizei os ouvidos na conversa.
— Eu sei. Só faz uma hora que a conhecemos e eu já estou torcendo para ela voltar para casa.
Reconheci a voz de America, então a risada que veio em seguida devia pertencer a Marlee.
— Não quero falar mal de ninguém. Mas ela é tão agressiva! — Sou mesmo. Obrigada por notar. — E Maxon nem está perto. Fico meio tensa por causa dela.
Contive um sorriso, satisfeita comigo mesma. Sentia pena das outras, mas elas simplesmente tinham que ir pra casa. Eu havia nascido para isso. Precisava disso.
— Não fique — America respondeu calmamente. — Esse tipo de garota cai fora da competição naturalmente.
Meu sorriso desapareceu imediatamente. O que ela queria dizer? Eu ia ser a número um entre as competidoras. Linda, famosa, rica... eu ficaria surpresa se Maxon não me escolhesse para o seu primeiro encontro.
Disse a mim mesma para não me deixar abalar com aquelas meninas. Minha intenção era permanecer indiferente e concentrar todas as energias no príncipe. Mas também comecei a me perguntar se precisava de um plano B... Algo que mantivesse as outras conscientes de sua própria insignificância. Mantive os olhos encobertos e comecei a tramar.

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