terça-feira, 2 de agosto de 2016

O beijo

Desci os lábios pelo pescoço de Maxon, desejando que não fosse um esforço. Ele era bem bonito, até divertido de vez em quando. E, céus, ele era o príncipe. Será que isso já não deveria tornar cada segundo emocionante?
Mais do que qualquer outra coisa, eu me sentia apenas cansada. O trabalho que dava ser desse jeito o dia inteiro, todos os dias, era insustentável. Minha esperança era que depois de ganhar pudesse ser eu mesma. Eu era mais suave do que isso, mais discreta do que isso. Mas se baixasse a guarda, tinha a sensação de que tudo estaria acabado.
Com Maxon, eu sempre precisava estar ligada. Tinha que ser charmosa, divertida, sexy, elegante e mil outras qualidades que se esperam das garotas ao mesmo tempo. E embora soubesse que era capaz de ser todas essas coisas, seria bom desligar o bom humor para ter um momento de tristeza, ou desplugar a sensualidade e ser fofa.
E quando eu não estava com ele, tinha que estar constantemente atenta por causa das outras garotas. Isso estava ficando mais fácil, já que Marlee tinha eliminado a si mesma e Natalie era muito avoada para representar uma ameaça real. Eu tinha posto tanta pressão em cima de Elise que com certeza ela ia desmoronar a qualquer momento, e America estava com a autoestima baixa desde que o povo se voltou contra ela. A disputa ia se resumir a Kriss e a mim – eu sabia. Ela era o único obstáculo entre mim e a fama eterna.
Enterrei as unhas no cabelo de Maxon e senti um leve calafrio quando os dedos dele escorregaram para a parte de baixo das minhas costas nuas. Não foi uma sensação ruim, mas bem no fundo sentia que alguma coisa estava faltando. Meu corpo entrou no piloto automático, correndo uma mão pelo peito dele e o provocando com meus lábios enquanto meu cérebro fazia hora extra. Maxon era um cavalheiro... mas era também um homem. Quantas palavras doces seriam necessárias para tirá-lo daquele corredor e levá-lo para meu quarto? Se calculara bem as coisas – e tinha certeza que sim – aquela noite poderia me levar à final sem muito mais trabalho. Uma gravidez antes do casamento implicaria necessariamente um fim abrupto da Seleção e um casamento logo em seguida. E eu sabia que ele queria filhos. Afinal, ele falava disso o tempo inteiro. Ele provavelmente nem se importaria. Enrosquei a perna nele, suspirando. Maxon parecia mais do que alegre quando baixou a boca até meu ouvido:
— Eu nunca tinha beijado alguém deste jeito.
— Mas você parece tão experiente! — provoquei, voltando a me apoiar contra ele.
Eu ia conseguir que ele subisse para o meu quarto, com certeza. Ele estava desesperado por esse tipo de atenção, desesperado para sentir alguma coisa. E eu poderia lhe dar isso.
Desci os lábios pelo pescoço dele, e ele inclinou a cabeça para o lado a fim de facilitar o movimento. Dei uma risadinha e mais um beijo enquanto o ouvia suspirar.
Será que eu tinha feito um trabalho tão bom que ele me amava? Ele estava tão feliz ali, tão grato pelos meus beijos. Devia me amar. A única alternativa era ele estar tão solitário quanto eu, e nessa situação qualquer urna serviria. Mas, de novo: Maxon era um cavalheiro.
De repente o corpo dele virou uma pedra, como se ele tivesse perdido o interesse.
Não, não, não!
Subi a boca e mordisquei a orelha dele, algo de que ele parecia gostar. Beijei o queixo dele, soltando um gemido a cada movimento. Deslizei a mão pelos braços dele e tentei enlaçar os dedos dele nos meus...
Nada deu certo.
Dei um passo para trás e o olhei com doçura.
— Algo errado, querido?
Ele olhava Fixamente para a escuridão. Me virei para conferir o que ele tanto observava. Até onde enxerguei, o corredor estava vazio.
— Preciso ir — ele anunciou.
— O quê? Não, espere — supliquei quando ele começou a se mexer. — Planejei uma noite maravilhosa para nós. Tem tanta coisa que eu queria te mostrar.
Maxon fez uma pausa e me encarou, confuso.
— Me mostrar?
— Sim — confirmei, chegando perto e esfregando meu nariz na bochecha dele. — No meu quarto.
Recuei para observá-lo. Queria ler o que se passava mente dele, mas não parecia estar em conflito. Parecia mais que Maxon estava à procura da maneira mais gentil de me dispensar.
— Peço desculpas. Meu comportamento foi inapropriado esta noite, e eu a levei a criar expectativas erradas. Você é uma garota muito bonita — ele disse, sorrindo. — Com certeza sabe disso. Ainda assim, eu não deveria ter... Sinto muito. Boa noite.
Maxon disparou escada acima, subindo dois degraus por vez, antes que eu pudesse pensar em um jeito de seduzi-lo de novo.
O QUE TINHA ACONTECIDO?
Tirei os saltos e me esgueirei pela escadaria. Um pedido de desculpas não era o mesmo que uma explicação, e eu exigia uma explicação. Dava para ouvir os passos apressados dele, e o segui pronta para lhe dizer poucas e boas. Ao chegar no segundo andar, me escondi no canto e o observei entrar no último corredor daquela ala. Só restava urna pessoa daquele lado do andar.
Depois de tudo o que tinha acabado de acontecer ele estava correndo para America Singer?
Entrei no meu quarto como um furacão e bati a porta.
— Senhorita? — Veda perguntou.
Joguei um sapato nela, que logo foi seguido pelo outro.
— SAIAM DAQUI! — gritei. — Todas vocês! Fora!
Minhas criadas cobriram a cabeça e correram, tentando escapar antes que qualquer outra coisa pudesse atingi-las.
Rasguei páginas de livros e atirei potes de cosméticos contra a parede. Arranquei os cabelos e os lençóis da cama. Olhei ao redor à procura de coisas para destruir. Nada no quarto era meu de verdade... com exceção dos vestidos. Sentei no chão do closet e comecei a despedaçar chiffon, rendas e cetim. Era boa a sensação de arruiná-los.
Eu precisava de uma tesoura! Deixaria tudo ainda melhor!
Fui até a penteadeira e vasculhei as gavetas atrás da tesoura de cabelo com que Veda aparava minhas pontas duplas.
E então vi o meu reflexo de relance.
Eu estava coberta de suor, o batom todo borrado dos beijos que dera no escuro em um garoto que não amava. Meu cabelo parecia um ninho de passarinho e meu olhar estava desvairado.
Eu nunca tinha ficado tão feia.
— O que você está fazendo? — sussurrei à garota irreconhecível.
Balancei a cabeça para ela. Não sentia nada além de pena por aquela beleza incrível que se tornara um monstro.
Soltei tudo o que tinha nas mãos de volta na gaveta e fui para o chuveiro. Tirei o vestido microscópico e me arrastei para dentro, deixando a água cair sobre mim enquanto apoiava a cabeça nos azulejos.
Ele foi atrás de America. Ele ficou todo animado comigo e fugiu para ela. Será que ele a prensava contra a parede agora? Será que estava com ela na cama?
Afastei o pensamento. Não importava as intenções de Maxon, America era pura demais para se deixar levar.
Eu não sentia ciúmes. Nem mesmo raiva. Acima de tudo, me sentia suja.
Valia a pena? Depois de todo esse tempo sob os holofotes, uma vida inteira sendo adorada, eu me recusava a ficar em segundo plano.
Como princesa, como rainha, eu seria lembrada para sempre. Eu precisava disso... Mas será que valia a pena dormir com alguém de quem nem gostava de verdade só para conseguir isso? Valia apena ter um bebê que eu nem queria de verdade?
Sentei no chão com a cabeça erguida na direção da água para enxaguar esse pensamento. Talvez eu devesse uma a America por ter me salvado de mim mesma naquela noite. Não que algum dia eu fosse contar isso a ela.
Me enrolei na toalha e voltei para o quarto, chocada com a bagunça que tinha feito. Lembrava de ter feito tudo aquilo, mas não imaginava que tinha sido tão feio.
Primeiro o mais importante. Escovei o cabelo; não podia deixá-lo cheio de nós. Então passei hidratante e procurei um roupão decente.
Em seguida, fui até a campainha e chamei Veda. Me perguntei quanto tempo ela demoraria depois de eu ter jogado um sapato na sua cabeça.
Corri os olhos pelo quarto. Havia uma porção de coisas de que eu mesma podia me encarregar. Refiz a cama e organizei a penteadeira. Quando Veda apareceu, com as mãos no peito de preocupação, eu já tinha feito tudo o que podia.
— Você vai precisar de uma vassoura — avisei enquanto ela contemplava a bagunça. — E... traga outra pra mim.
Ela as trouxe com uma rapidez que eu sequer imaginava possível. Cuidei dos papéis e ela ficou com o pó. Juntei os vestidos arruinados para ela, que pegou também os retalhos do chão.
— Desculpe — murmurei.
Veda arregalou os olhos. Eu nunca tinha me desculpado por nada.
— Não se preocupe, senhorita. Sempre é possível reutilizar os pedaços que sobraram.
Quando meu quarto voltou a parecer normal, me enfiei na cama, mais cansada do que jamais estivera. Não sentia apenas o peso de um dia, mas de semanas.
Eu não podia desistir. Mas também ficava cada vez mais claro que não podia continuar. Não daquele jeito.
O amor não estava em jogo. Eu podia me acostumar com isso. Mas como eu poderia me tornar mais preciosa para Maxon do que alguém que ele amava de verdade? Eu tinha muitas das qualidades valorizadas. Só precisava fazer com que ele enxergasse. Tinha que mostrar a ele que podia ser rainha.

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