terça-feira, 2 de agosto de 2016

Parte II

Eu contraía as mãos o tempo todo. Finalmente sararam, mas às vezes, depois de um dia longo, minhas palmas inchavam e latejavam. Naquela noite, até meu pequeno anel apertava. Encontrei a parte que estava arrebentando e fiz uma nota mental para pedir a Carter um novo no dia seguinte. Tinha perdido a conta de quantas alianças de barbante já tínhamos usado, mas ter aquele símbolo na mão significava muito pra mim.
Peguei a pá de novo e tirei a farinha que caíra na mesa para jogar no lixo. Enquanto isso, outros funcionários da cozinha esfregavam o chão ou guardavam os ingredientes. Tudo já estava preparado para o café da manhã, e logo poderíamos dormir.
Respirei fundo quando duas mãos envolveram minha cintura.
— Olá, esposa — Carter disse ao beijar minha bochecha. — Ainda trabalhando?
Ele tinha o cheiro de seu trabalho: grama cortada e luz do sol. Eu tinha certeza de que ficaria preso nos estábulos – onde estaria longe dos olhos do rei – assim como eu estava enterrada na cozinha. Em vez disso, Carter andava por ai com dezenas de outros zeladores, escondido à vista de todos. Ele voltava para dentro à noite com a vida grudada no corpo, e por um momento eu tinha a sensação de também ter estado ao ar livre.
— Quase acabando — respondi com um suspiro. — Vou para a cama quando arrumar aqui.
Ele roçou o nariz no meu pescoço.
— Não seja perfeccionista. Posso massagear suas mãos se quiser.
— Seria perfeito — falei baixinho.
Eu ainda amava minhas massagens no fim do dia – talvez ainda mais agora que era Carter quem as fazia – mas quando o expediente terminava bem depois da hora de dormir, geralmente passava sem esse luxo.
Às vezes, meu pensamento se apegava às lembranças dos meus dias de antes. Como era bom ser adorada, ser o orgulho da minha família, como eu me sentia bonita. Era difícil passar de ser servida o tempo todo para a que serve o tempo todo; ainda assim, eu sabia que as coisas poderiam ser piores, bem piores.
Tentei manter o sorriso no rosto, mas o olhar dele foi além.
— O que houve, Marlee? Você tem andado cabisbaixa ultimamente — ele cochichou sem me soltar.
— Sinto muita falta dos meus pais, especialmente agora que o Natal está tão perto. Não paro de pensar em como estão. Se estou triste deste jeito sem eles, como eles se viram sem mim? — Apertei os lábios, como se assim pudesse espremer toda a preocupação. — E sei que é bobeira ligar para isso, mas não vamos poder trocar presentes. O que eu poderia dar a você? Um pedaço de pão?
— Eu adoraria um pedaço de pão!
Achei graça desse entusiasmo.
— Mas eu nem poderia usar minha própria farinha para fazer um pão pra você. Teria que roubar.
Ele me beijou na bochecha.
— Verdade. Além disso, da última vez que roubei alguma coisa, era bem grande, e recebi mais do que merecia, e já estou feliz com o que tenho.
— Você não me roubou. Não sou uma chaleira.
— Humm — ele ficou pensando. — Talvez você é que tenha me roubado. Porque lembro com clareza que um dia pertenci a mim mesmo, mas agora sou todo seu.
Sorri.
— Eu te amo.
— Também te amo. Não se preocupe. Sei que é um período difícil, mas não é pra sempre. E temos muito pelo que agradecer este ano.
— Temos. Desculpe por estar tão desanimada hoje. Só me sinto...
— Mallory!
Virei ao ouvir chamarem meu novo nome.
— Onde está Mallory? — um guarda perguntou ao entrar na cozinha. Estava com uma garota que eu jamais tinha visto.
Engoli em seco antes de responder.
— Aqui.
— Por favor, venha.
Havia urgência na voz dele, mas o “por favor” me deixou menos assustada. A cada dia eu me preocupava mais com a possibilidade de alguém contar ao rei que Carter e eu vivíamos na casa dele em segredo. Eu sabia que, se isso acontecesse, o açoite pareceria mais um prêmio do que um castigo.
Beijei a bochecha de Carter e disse:
— Já volto.
A garota agarrou minha mão quando passei por ela.
— Obrigada. Vou esperar você aqui.
Franzi a testa, confusa.
— Tudo bem.
— Contamos com a sua mais absoluta discrição — o guarda disse enquanto me conduzia pelo corredor. — Claro — respondi, ainda sem entender.
Entramos na ala dos soldados, o que me deixou ainda mais confusa. Uma pessoa da minha condição não tinha permissão para frequentar essa parte do palácio. Todas as portas estavam fechadas, exceto uma, guardada por outro soldado com rosto calmo, mas olhar preocupado.
— Apenas faça o melhor que puder — alguém disse dentro do quarto.
Eu conhecia aquela voz.
Cheguei perto da porta e contemplei a cena. America deitada numa cama com o braço sangrando enquanto sua criada principal, Anne, examinava a ferida sob os olhares do príncipe e de dois guardas.
Anne, sem tirar os olhos da ferida, gritava ordens para os guardas:
— Alguém traga água fervente. A bolsa de primeiros socorros deve ter antisséptico, mas quero água também.
— Eu pego — ofereci. O rosto de America se animou e nossos olhares se encontraram.
— Marlee.
Ela começou a chorar, e percebi que estava perdendo a batalha contra a dor.
— Já volto, America. Aguente firme!
Corri para a cozinha e peguei umas toalhas no armário. Ainda bem que já havia água fervente numa chaleira; despejei um pouco num jarro.
— Cimmy, você vai precisar encher a chaleira de novo — avisei com pressa e saí rápido demais para que ela reclamasse.
Em seguida fui atrás de bebida. As melhores garrafas ficavam guardadas perto do rei, mas às vezes usávamos conhaque nas receitas. Eu já era mestra em fazer costeletas de porco com conhaque, frango ao molho de conhaque e um creme batido com conhaque para a sobremesa. Peguei uma garrafa na esperança de que fosse ajudar.
Eu entendia um pouco de dor.
Ao voltar, encontrei Anne passando um fio por uma agulha enquanto America tentava controlar a respiração. Deixei a água e as toalhas atrás de Anne e fui até a cama com a garrafa.
— É para a dor — expliquei ao levantar a cabeça de America para ajudá-la a beber. Ela tentou engolir, mas acabou tossindo mais do que bebendo. — Tente de novo.
Sentei ao seu lado, longe do braço ferido, e mais uma vez levei o gargalo aos lábios dela. Ela tomou mais dessa vez. Depois de engolir, levantou os olhos para mim e disse:
— Estou tão feliz por você estar aqui.
Eu estava com o coração partido de vê-la com tanto medo, ainda que ela já estivesse a salvo. Não sabia o que tinha acontecido, mas ia fazer o máximo para melhorar as coisas.
— Sempre estarei ao seu lado, America. Você sabe disso. — Abri um sorriso e tirei uma mecha do cabelo dela que estava sobre a testa. — Que diabos vocês estavam fazendo?
Deu para notar a hesitação nos olhos dela.
— Parecia uma boa ideia — foi o que respondeu.
Inclinei a cabeça para o lado.
— America, sua cabeça está cheia de más ideias. Ótimas intenções, péssimas ideias — falei, tentando segurar o riso.
Ela apertou os lábios, como que para dizer que sabia bem do que eu falava.
— Essas paredes abafam bem o som? — Anne perguntou aos guardas.
Aquele devia ser o quarto deles.
— Muito bem — um deles respondeu. — Não escuto muita coisa neste canto do palácio.
Anne acenou com a cabeça.
— Ótimo. Pois bem, todos para o corredor. Senhorita Marlee — ela continuou. Fazia tanto tempo que ninguém além de Carter me chamava pelo meu verdadeiro nome que senti vontade de chorar. Não tinha noção do quanto meu nome significava para mim — preciso de mais espaço, mas você pode ficar.
— Não vou atrapalhar, Anne — prometi.
Os rapazes se retiraram para o corredor e Anne assumiu o controle. Ao vê-la conversar com America e se preparar para dar os pontos, não pude deixar de ficar impressionada com tanta calma. Eu sempre gostara das criadas de America, especialmente de Lucy, que era muito, muito doce. Mas aquela situação me fez enxergar Anne de um jeito completamente novo. Era uma pena que alguém tão capaz de lidar com uma crise não pudesse ser mais do que uma criada.
Anne finalmente começou a limpar a ferida, que eu ainda era incapaz de identificar. America gritava com a toalha na boca. Embora odiasse fazer isso, eu sabia que precisava imobilizá-la para que ela ficasse quieta. Subi em cima dela e concentrei toda a minha energia em manter seu braço esticado.
— Obrigada — Anne murmurou ao tirar um pequeno fragmento negro com a pinça.
O que era aquilo? Sujeira? Asfalto? Ainda bem que Anne era cuidadosa. Só o ar já bastaria para deixar America com uma infecção horrível, mas Anne claramente não deixaria isso acontecer.
America gritou de novo e tentei acalmá-la:
— Vai acabar logo, America — falei, pensando nas palavras que Maxon me dissera antes do açoite e nas palavras de Carter durante o castigo. — Pense em algo feliz. Pense em sua família.
Pude notar que ela tentava, mas era evidente que não estava funcionando. A dor era demais. Então lhe dei mais conhaque, um gole atrás do outro até Anne terminar. Quando tudo acabou, comecei a me perguntar se America sequer se lembraria do que tinha acontecido. Depois que Anne cobriu a ferida com gazes, nós duas recuamos e assistimos America cantar uma canção natalina infantil enquanto traçava com o dedo desenhos imaginários na parede.
Anne e eu achamos graça de seus gestos desajeitados.
— Alguém sabe pelo menos onde os cachorrinhos estão? — America perguntou. — Por que estão tão longe?
Cobrimos a boca, rindo a ponto de chorar. O perigo tinha passado, America havia sido bem cuidada e agora só pensava na emergência dos cachorrinhos em sua cabeça.
— Talvez seja melhor guardarmos isso para nós — Anne sugeriu.
— Sim, também acho — suspirei. — O que você acha que aconteceu com ela?
Anne ficou tensa.
— Sou incapaz de arriscar um palpite sobre o que estavam fazendo, mas posso afirmar com certeza que aquela era uma ferida de bala.
— Bala? — perguntei, espantada.
Anne confirmou.
— Uns centímetros mais para a esquerda e ela podia ter morrido.
Baixei o olhar para America, que tinha passado a cutucar as bochechas com os dedos, aparentemente só para saber qual era a sensação.
— Que bom que ela está bem agora.
— Mesmo se ela não fosse minha patroa, acho que ainda gostaria que se tornasse princesa. Não sei o que teria feito se a perdêssemos — Anne falou, não só como criada, mas como súdita.
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.
Concordei com a cabeça.
— Estou feliz por ela ter podido contar com você esta noite. Vou chamar os rapazes para que a levem ao quarto.
Agachei ao lado de America.
— Ei, estou indo agora. Mas tente não se arrebentar de novo, certo?
Ela fez que sim com a cabeça lentamente.
— Sim, senhora.
Com certeza ela não se lembraria disso.
O guarda que tinha me chamado estava agora de pé no fim do corredor, de vigia. O outro estava sentado no chão bem ao lado da porta, mexendo os dedos de nervosismo enquanto Maxon caminhava em círculos.
— E então? — o príncipe perguntou.
— Ela está melhor. Anne cuidou de tudo, e America está... Bom, ela tomou bastante conhaque, então está meio fora de si. — A letra da música de Natal que ela tinha cantado ecoou na minha cabeça e deixei escapar uma risadinha. — Podem entrar agora.
O guarda no chão se levantou como um raio, e Maxon seguiu logo atrás dele. Fiquei com vontade de parar os dois e perguntar algumas coisas, mas talvez não fosse o momento.
Caminhei a passos cansados para o quarto, destruída depois de passada a adrenalina. Ao me aproximar, vi Carter sentado no corredor em frente à porta.
— Ah! Você não precisava me esperar — eu disse baixinho, na tentativa de não incomodar ninguém.
— Eu a coloquei na nossa cama — ele disse. — Por isso decidi esperar aqui fora.
— Você colocou quem na nossa cama?
— A menina da cozinha. Aquela que estava com o guarda.
— Ah, certo. — Sentei ao seu lado. — O que ela queria comigo?
— Parece que você vai treiná-la. O nome dela é Paige, e de acordo com a história que ela acabou de me contar, esta noite foi bem interessante.
— Como assim?
Ele baixou ainda mais a voz:
— Ela era prostituta. Disse que America a encontrou e a trouxe para cá. Então o príncipe e America estiveram fora do palácio esta noite. Você faz alguma ideia do motivo?
Neguei com a cabeça.
— Só sei que acabei de ajudar Anne a costurar o ferimento à bala de America.
A expressão chocada de Carter era reflexo da minha.
— O que eles fizeram para se arriscar tanto?
— Não sei — respondi com um bocejo. — Mas tenho a sensação de que foi por uma boa causa.
Embora topar com prostitutas e tiroteios não parecesse muito saudável, havia uma coisa que eu sabia sobre Maxon: ele sempre lutava para fazer o que era certo.
— Vamos — Carter disse. — Você pode dormir ao lado de Paige. Eu durmo no chão.
— Sem chance. Para onde você for, eu vou — rebati.
Eu precisava estar ao lado dele naquela noite. Tanta coisa passava pela minha cabeça, e ele era meu único porto seguro.
Lembrei de achar uma tolice da parte de America ficar brava com Maxon por causa do meu açoite, mas agora fazia sentido. Apesar de todo o respeito que eu tinha por ele, não conseguia evitar sentir um pouco de raiva por ele ter deixado America se machucar. Pela primeira vez, fui capaz de ver meu castigo pelos olhos dela. Nesse momento, tomei consciência de quanto a amava, e de quanto ela devia me amar. Se America sentiu metade da preocupação que eu tive com ela, era mais do que suficiente.


Uma semana e meia tinha se passado, e nada parecia ter voltado ao normal ainda. Em todo lugar que eu ia, as conversas ainda giravam em torno do ataque. Fui uma das poucas pessoas com sorte. Enquanto muitos foram assassinados cruelmente por todo o palácio, Carter e eu nos refugiamos com segurança no nosso quarto. Ele estava do lado de fora cuidando dos jardins quando ouviu os tiros, e assim que percebeu o que se passava, disparou para a cozinha, me buscou, e ambos corremos para o quarto. Ajudei-o a empurrar a cama contra a porta, e depois deitamos em cima dela para fazer mais peso.
Enquanto as horas passavam, eu tremia em seus braços, apavorada de pensar que os rebeldes poderiam nos encontrar e imaginando se havia alguma chance de eles terem piedade de nós. Não parava de perguntar a Carter se não deveríamos tentar fugir do palácio, mas ele insistia que era mais seguro ficar onde estávamos.
— Você não viu o que eu vi, Marlee. Acho que não conseguiríamos.
Então esperamos, atentos aos sons dos inimigos e aliviados quando os amigos finalmente passaram pelo corredor batendo nas portas. Era estranho pensar que, quando entrei naquele quarto, o rei era Clarkson, mas quando saí, era Maxon.
Eu ainda não era nascida da última vez em que a coroa fora entregue a um novo rei. Agora parecia uma mudança natural para o país. Talvez porque eu sempre seguira Maxon com alegria em qualquer situação. E, claro, o trabalho que cabia a Carter e a mim no palácio não diminuiu, de modo que não havia muito tempo para pensar no novo governante.
Eu estava preparando o almoço quando um guarda chegou à cozinha e me chamou pelo meu novo nome. Na última vez em que isso tinha acontecido, America estava sangrando, então logo fiquei preocupada. E eu não sabia bem o que significava o fato de Carter, coberto de suor pelo trabalho no jardim, já estar acompanhando o guarda.
— Você sabe do que se trata? — cochichei para Carter enquanto o guarda nos conduzia escada acima.
— Não. Não acho que estamos encrencados, mas a formalidade de uma escolta é... desconcertante.
Enlacei a mão na dele. A minha aliança ficou um pouco torcida por causa disso e o nó se aninhou entre os dedos. O guarda nos levou até a Sala do Trono, geralmente reservada para a recepção de convidados ou cerimônias especiais relacionadas ã coroa. Maxon estava sentado no fundo da sala, com a coroa na cabeça. Parecia tão sábio. Meu coração se encheu de orgulho ao ver America sentada no trono menor ao lado do novo rei. Ainda não havia coroa para ela – só depois do casamento – mas ela usava uma tiara no cabelo que parecia um sol brilhante, e já tinha ar de rainha.
Ao lado, conselheiros sentados a uma mesa reviam pilhas de papéis e não paravam de tomar notas.
Acompanhamos o guarda ao longo do tapete azul. Ele parou bem em frente ao rei Maxon, curvou-se e deu um passo para o lado, deixando Carter e eu diante dos tronos.
Carter abaixou a cabeça depressa.
— Majestade.
Eu o acompanhei com uma reverência.
— Carter e Marlee Woodwork — ele começou com um sorriso. Meu coração queria explodir ao ouvir meu nome completo e verdadeiro de casada. — À luz dos seus serviços à coroa, eu, seu rei, tomo a liberdade de desfazer os castigos infligidos a vocês no passado.
Carter e eu nos entreolhamos, sem saber ao certo o que isso significava.
— Evidentemente, o castigo físico não pode ser mudado, mas as outras condenações podem. É verdade que vocês dois foram rebaixados à casta Oito?
Era bizarro ouvi-lo falar assim, mas suponho que existam regras a serem seguidas. Carter respondeu por nós dois:
— Sim, Majestade.
— E também é verdade que vocês têm morado no palácio, realizando o trabalho de Seis pelos últimos dois meses?
— Sim, Majestade.
— Também é verdade que você, Marlee Woodwork, serviu à futura rainha quando esta estava fisicamente debilitada?
Sorri para America.
— Sim, Majestade.
— É também verdade, Carter Woodwork, que você tem amado e cuidado de sua esposa, uma ex-Elite e, portanto, uma valiosa filha de Illéa, dando a ela o melhor que poderia ter nessas circunstâncias?
Carter baixou o olhar. Era como se eu pudesse ler seus pensamentos, imaginando se tinha me dado o bastante.
Respondi de novo:
— Sim, Majestade!
Reparei que meu marido piscou para segurar as lágrimas. Tinha sido ele a me dizer que aquela vida não duraria para sempre; era ele quem me animava quando os dias eram longos demais. Como podia pensar que não fazia o bastante?
— Em retribuição aos seus serviços, eu, rei Maxon Schreave, dispenso ambos de suas castas. Vocês já não são mais Oito. Carter e Marlee Woodwork, vocês são os primeiros cidadãos de Illéa a não terem casta.
Estreitei os olhos.
— Não temos castas, Majestade?
Arrisquei um olhar para America e vi seu rosto radiante voltado para mim, com lágrimas brilhando nos olhos.
— Exato. Vocês agora têm a liberdade de escolher duas coisas. Primeira: devem decidir se gostariam de continuar a chamar o palácio de lar. Segunda: podem me dizer a profissão que gostariam de ter. Não importa a decisão: minha noiva e eu ficaremos contentes em lhes fornecer casa e apoio. Mas, mesmo depois disso, vocês não terão casta. Serão apenas vocês mesmos.
Virei para Carter, completamente atônita.
— O que você acha? — ele perguntou.
— Devemos tudo a ele.
— De acordo. — Carter endireitou o corpo e se voltou para Maxon. — Majestade, minha esposa e eu ficaríamos felizes em permanecer na sua casa e servi-lo. Não posso falar por ela, mas amo meu cargo de zelador. Sou feliz por trabalhar ao ar livre e pretendo continuar enquanto for capaz. Se algum dia o posto de zelador principal estiver disponível, eu gostaria de ser levado em conta para ocupá-lo, mas de resto estou contente.
Maxon fez que sim com a cabeça.
— Muito bem. E você, Marlee Woodwork?
Olhei para America.
— Se a futura rainha me aceitar, adoraria ser uma de suas damas de companhia.
America dançou um pouco no assento e levou as mãos ao coração. Maxon a olhou como se ela fosse a coisa mais linda do planeta.
— Talvez dê para perceber que era para isso que ela torcia. — O novo rei limpou a garganta e se endireitou no trono, dirigindo-se aos homens à mesa. — Registre-se que Carter e Marlee Woodwork foram perdoados dos seus crimes passados e que agora vivem sob a proteção do palácio. Diga-se ainda que ambos não têm casta e estão acima de qualquer segregação.
— Está registrado! — um homem gritou em resposta.
Assim que terminou de falar, Maxon levantou e tirou a coroa, enquanto America simplesmente pulou do assento e correu para me abraçar.
— Eu estava torcendo para que você ficasse — ela falou quase cantando. — Não posso seguir em frente sem você!
— É brincadeira, não é? Eu tenho muita sorte de servir a rainha.
Maxon se juntou a nós e apertou firme a mão de Carter.
— Tem certeza de que quer continuar como zelador? Você pode voltar a ser guarda e até um conselheiro, se quiser.
— Tenho certeza. Nunca tive cabeça para esse tipo de coisa. Sempre fui bom com as mãos, e esse tipo de trabalho me faz feliz.
— Muito bem — Maxon disse. — Avise se um dia mudar de ideia.
Carter fez que sim com a cabeça enquanto me envolvia com o braço.
— Ah! — America exclamou para logo voltar ao trono aos pulinhos. — Quase esqueci!
Ela pegou uma caixinha e voltou radiante para perto de nós.
— O que é isso? — perguntei.
Ela sorriu para Maxon.
— Prometi que estaria no seu casamento e não cumpri. E apesar de ser um pouco tarde, pensei que poderia compensar com um presentinho.
America estendeu a caixa para nós, e mordi o lábio de ansiedade. Todas as coisas que sonhara para o meu casamento – um vestido lindo, uma festa fantástica, um quarto cheio de flores – ficaram faltando. A única coisa que tive no dia foi um noivo absolutamente perfeito, e estava tão feliz que deixei todo o resto de lado.
Mesmo assim, era bom receber um presente. Tornava tudo mais real. Abri a caixa e, lá dentro, encontrei duas simples e belas alianças de ouro. Levei a mão à boca.
— America!
— Tentamos ao máximo acertar o tamanho — Maxon disse. — E se vocês preferirem outro metal, ficaremos felizes em trocar.
— Acho os anéis de barbante uma graça — America disse. — Espero que guardem esses que estão usando agora para sempre. Mas achamos que mereciam algo um pouco mais permanente.
Olhei para as joias, incapaz de crer que eram reais. Era engraçado: duas coisas tão pequenas e de valor incalculável. Eu estava prestes a chorar de felicidade. Carter tirou os anéis da minha mão, entregou a Maxon e pegou o menor da caixa.
— Vamos ver como fica — ele disse antes de tirar com cuidado o barbante do meu dedo e o segurar enquanto deslizava a aliança de ouro no lugar.
— Um pouco folgada — eu disse, brincando com ela. — Mas perfeita.
Empolgada, peguei o anel de Carter, que já tirava o velho barbante para guardar junto com o meu. A aliança dele serviu perfeitamente. Coloquei a mão sobre a dele e apertei os dedos.
— É demais! — eu disse. — É muita coisa boa para um dia só.
America veio por trás de mim e me envolveu em seus braços.
— Tenho a sensação de que muitas coisas boas estão por vir.
Eu a abracei enquanto Carter foi apertar novamente a mão de Maxon.
— Estou tão feliz em ter você de volta — cochichei.
— Eu também.
— E você vai precisar de alguém para te impedir de passar dos limites — provoquei.
— Você está de brincadeira? Preciso de um exército inteiro para me impedir de passar dos limites.
Comecei a rir.
— Nunca serei capaz de te agradecer o bastante. Você sabe, não é? Sempre estarei ao seu lado.
— Então isso já é agradecimento suficiente.

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