Ajeitei a parte de cima do vestido na altura dos ombros. Carter estava quieto, e seu silêncio me dava mais calafrios do que a temperatura baixa nas celas do palácio. Tinha sido horrível ouvir seus grunhidos de dor enquanto os guardas arrancavam toda a sua esperança a pauladas, mas pelo menos dava para saber que ele estava respirando.
Tremendo, escolhi os joelhos contra o peito. Outra lágrima escorregou pela minha bochecha e agradeci; era a única coisa quente sobre a minha pele. Nós sabíamos. Sabíamos que ia acabar assim. E ainda assim nos encontramos. Como poderíamos ter parado?
Me perguntava como morreríamos. Forca? Tiro? Algo muito mais elaborado e doloroso?
Não podia deixar de torcer para que o silêncio de Carter fosse um sinal de que ele já tivesse partido. Ou, se não, de que ele seria o primeiro. Eu preferia que minha última lembrança fosse a morte dele do que sofrer sabendo que a última lembrança dele seria a minha. Mesmo naquele momento, sozinha na cela, tudo o que eu queria era que a dor dele acabasse.
Alguma coisa se mexeu no corredor, e meu coração disparou. O que era? Será que era o fim? Fechei os olhos rápido para tentar segurar as lágrimas. Como isso tinha acontecido? Como eu tinha passado de participante amada da Seleção para alguém com o rótulo de traidora que aguardava sua punição? Ah, Carter... Carter, o que foi que fizemos?
* * *
Eu não me considerava uma pessoa vaidosa. Ainda assim, quase todos os dias após o café-da-manhã, eu sentia como se tivesse que voltar para o meu quarto e retocar a maquiagem antes de ir para o Salão das Mulheres. Sabia que isso era bobo – Maxon sequer me veria outra vez antes do anoitecer. E antes que isso acontecesse, é claro, eu reaplicaria toda a minha maquiagem e mudaria a minha roupa de qualquer forma.
Não que qualquer coisa que eu fizesse estivesse produzindo muito efeito. Maxon era educado e amigável, mas eu não achava que tinha uma conexão com ele como algumas das outras garotas tinham. Havia algo de errado comigo?
Ao passo que eu certamente estava me divertindo muito no palácio, eu sentia como se houvesse alguma coisa que as outras garotas – bem, algumas delas, pelo menos – entendiam, que eu não. Antes de ser Selecionada, eu pensava que era engraçada, bonita e inteligente. Mas agora eu estava no meio de um monte de garotas cuja missão diária era impressionar um garoto em particular, eu me senti ofuscada, tediosa e inferior. Percebi que deveria ter prestado mais atenção nas minhas antigas amigas, que sempre pareciam estar na pressa para encontrar um marido e se estabelecer. Elas passavam o tempo falando sobre roupas, maquiagem e garotos, enquanto eu me importava mais com os ensinamentos dos meus tutores. Senti como se tivesse perdido uma lição importante e agora estivesse em uma horrível desvantagem.
Não. Eu apenas precisava continuar tentando, isso era tudo. Eu memorizaria tudo das lições de História da Silvia mais cedo nessa semana. Iria até mesmo escrevê-las para tê-las em mãos no caso de esquecer alguma coisa. Queria que Maxon pensasse que eu era inteligente e bem equilibrada. Também queria que ele pensasse que eu era linda, então parecia que essas viagens ao meu quarto eram necessárias. A rainha Amberly fazia isso? Ela, sem esforço algum, parecia maravilhosa o tempo inteiro.
Parei nas escadas para olhar pro meu sapato. Um dos saltos parecia se agarrar ao carpete. Não vi nada, então continuei seguindo para o Salão das Mulheres.
Balancei meu cabelo sobre meu ombro enquanto me aproximava do primeiro andar e voltei a me concentrar em saber se havia mais alguma coisa que eu deveria fazer no momento. Eu realmente queria vencer. Não tinha passado muito tempo com Maxon, mas ele parecia gentil, engraçado e...
— Ahh! — Meu salto enganchou na parte de cima do degrau, e eu caí com um barulho em cima do chão de mármore. — Ai — murmurei.
— Senhorita! — Olhei para cima e vi um guarda correndo em minha direção. — Você está bem?
— Estou bem. Nada ferido, além do meu orgulho — disse, corando.
— Não sei como as mulheres andam nesses sapatos. É um milagre que todas vocês não quebrem os tornozelos o tempo todo.
Soltei um riso quando ele me ofereceu sua mão.
— Obrigada. — Comecei a escovar meu cabelo para trás e alisei meu vestido.
— Disponha. Você tem certeza de que não está ferida?— ele me olhou ansiosamente, procurando por arranhões ou cortes.
— Meu quadril está doendo um pouco na região onde caí, mas fora isso eu me sinto perfeita. — O que era verdade.
— Talvez devêssemos levá-la à ala hospitalar, apenas por precaução.
— Não, de verdade — insisti. — Estou bem.
Ele suspirou.
— Você poderia me fazer um favor e ir mesmo assim? Caso você tenha se ferido e eu não tiver feito algo para ajudar, eu me sentiria mal por isso. — Seus olhos azuis eram terrivelmente convincentes. — E estou disposto a apostar que o príncipe iria querer que você fosse.
Ele tinha um bom motivo.
— Tudo bem — cedi. — Eu vou.
Ele sorriu, seu sorriso sempre tão ligeiramente torto.
— Ok, então. — Ele me pegou em seus braços, e eu ofeguei em choque.
— Não creio que eu precise disso — protestei.
— Mesmo assim. — Ele começou a andar, então eu não podia descer. — Agora, me corrija se eu estiver errado, mas você é a senhorita Marlee, certo?
— Sim, sou eu.
Ele continuou sorrindo, e não pude deixar de sorrir de volta para ele.
— Tenho trabalhado duro para manter todas vocês em linha reta. Honestamente, não acho que eu era o melhor em treinamento, e não faço ideia de como acabei no palácio. Mas quero ter certeza de que eles não se arrependerão dessa decisão, então tento ao menos aprender nomes. Dessa forma, caso alguém precise de algo, eu vou saber sobre quem eles estão falando.
Gostei da maneira como ele falou. Era como se ele estivesse contando uma história, mesmo que ele estivesse apenas afirmando um fato sobre si mesmo. Seu rosto estava animado e sua voz, acesa.
— Bom, você já está se saindo além do esperado — incentivei. — E não seja tão negativo com si mesmo. Tenho certeza de que, se foi colocado aqui, você era excelente no treinamento. Seus comandantes devem ter visto um grande potencial em você.
— Você é muito gentil. Vai me lembrar de onde você é?
— Kent.
— Ah, eu sou de Allens.
— Sério?— Allens era logo à leste de Kent, acima de Carolina. Nós éramos vizinhos, de alguma forma.
Ele balançou a cabeça enquanto caminhava.
— Sim, senhorita. Esta é a primeira vez que eu saí da minha província. Bem, segunda, se você contar o treinamento.
— Também é a minha primeira vez. É meio difícil se acostumar com o clima.
— É mesmo! Estou à espera do outono, mas não sei se eles sequer têm um outono por aqui.
— Sei o que quer dizer. Verão é bom, mas não todos os dias.
— Exatamente — disse ele com firmeza. — Você consegue imaginar quão bobo o Natal deve parecer?
— Não pode ser tão bom assim, sem a neve — suspirei.
Eu falava sério. Sonhava com inverno o ano todo. Era a minha estação favorita do ano.
— Nem de perto — ele concordou.
Não sei por que eu estava sorrindo tanto. Talvez fosse porque essa conversa me pareceu tão fácil. Eu nunca tive uma conversa que fluísse bem com um garoto. Evidentemente, eu não tive lá muita prática, mas era bom pensar que talvez eu não precisasse de tanto trabalho quanto pensava.
Quando nos aproximamos da entrada da ala hospitalar, ele desacelerou.
— Você se importaria de me colocar no chão?— perguntei. — Não quero que eles pensem que eu quebrei uma perna ou algo assim.
— Sem problemas — riu.
Ele me colocou no chão e abriu a porta para mim. Dentro, uma enfermeira estava sentada em uma mesa. O soldado falou por mim.
— A senhorita Marlee levou um pequeno tombo no corredor. Provavelmente não é nada, mas só gostaríamos de ter certeza.
A enfermeira se levantou, parecendo feliz por ter algo para fazer.
— Oh, Senhorita Marlee, espero que você não esteja muito ferida.
— Não, só um pouco dolorida aqui — disse, tocando meu quadril.
— Vou te examinar imediatamente. Muito obrigada, soldado. Você pode voltar ao seu posto.
O guarda inclinou a cabeça para ela e começou a sair. Pouco antes de as portas se fecharam, ele piscou para mim e me deu um sorriso torto, e eu fiquei ali, sorrindo como uma idiota.
* * *
Voltei ao presente quando as vozes no corredor ficaram mais altas. Escutei as saudações dos guardas, emendadas umas nas outras. Todos diziam a mesma palavra: alteza. Maxon estava ali.
Corri para a janelinha gradeada da minha cela. Via porta da cela do outro lado do corredor – a cela de Carter – se abrir e Maxon entrar com sua escolta. Estiquei o pescoço ao máximo para ouvir o que diziam, mas apesar de distinguir a voz de Maxon, não consegui decifrar palavra nenhuma. Também ouvi alguns murmúrios de resposta e tive certeza de que eram de Carter. Ele estava acordado. E vivo. Suspirei e tremi ao mesmo tempo, e então ajeitei mais uma vez o tule nos ombros.
Depois de alguns minutos, a porta da cela de Carter se abriu de novo e observei Maxon se aproximar da minha. Os guardas lhe deram passagem e fecharam a porta assim que ele entrou. Ele me olhou e exclamou:
— Meu Deus, o que fizeram com você?!
Maxon caminhou até mim enquanto desabotoava o paletó.
— Maxon, eu sinto tanto — chorei.
Ele tirou o paletó e o pós sobre mim.
— Foram os guardas que rasgaram sua fantasia? Eles te machucaram?
— Nunca quis ser infiel. Nunca quis te magoar.
Ele levou as mãos ao meu rosto.
— Marlee, me escute. Os guardas bateram em você?
Fiz que não com a cabeça.
— Um deles arrancou as asas quando me empurrou pela porta, mas não fizeram mais nada.
Ele suspirou, claramente aliviado. Que homem bom era ele: ainda preocupado com meu bem-estar mesmo depois de ter descoberto o que Carter e eu fizemos.
— Eu sinto tanto — sussurrei de novo.
As mãos de Maxon desceram até meus ombros:
— Estou começando a entender como é inútil lutar contra uma paixão. Jamais culparia você por isso.
Encarei seus olhos ternos e falei:
— Tentamos nos segurar. Juro que tentamos. Mas eu amo Carter. Eu me casaria com ele amanhã mesmo... se não fôssemos estar mortos até lá.
Baixei a cabeça e comecei a soluçar incontrolavelmente. Queria agir mais como uma dama nessa situação, aceitar o castigo com nobreza. Mas parecia tão injusto. Era como se estivessem me tirando todas as coisas antes mesmo de elas serem minhas de verdade.
Maxon começou a acariciar delicadamente as minhas costas.
— Você não vai morrer.
Encarei-o sem acreditar.
— O quê?
— Você não foi condenada à morte.
Deixei escapar um suspiro aliviado e o abracei.
— Obrigada! Muito obrigada! É mais do que merecemos!
— Pare! Pare! — ele insistiu, chacoalhando meus braços.
Recuei, envergonhada por ter quebrado o protocolo depois de tudo que já tinha feito.
— Você não foi condenada ã morte — ele repetiu — mas ainda terá que ser punida. — Ele fez uma pausa, olhou para o chão e balançou a cabeça. — Sinto muito, Marlee, mas vocês dois serão açoitados em público amanhã de manhã.
Ele parecia ter dificuldade para sustentar meu olhar; se eu não soubesse quem ele era, teria pensado que conhecia a dor à nossa espera.
— Sinto muito — ele repetiu. — Tentei evitar isso, mas meu pai insiste que o palácio precisa manter as aparências. E como o vídeo de vocês dois juntos já circulou, não há nada que eu possa fazer para convencê-lo a mudar de ideia.
Limpei a garganta.
— Quantos golpes?
— Quinze. Acho que o plano é fazer Carter sofrer bem mais do que você, mas mesmo assim a dor vai ser absurda. Sei que às vezes as pessoas até desmaiam. Sinto muito, muito mesmo, Marlee.
Ele parecia decepcionado consigo mesmo. E eu só conseguia pensar no quanto ele era bom.
Endireitei o corpo, na tentativa de mostrar a ele que eu era capaz de lidar com a situação.
— Você vem aqui com a oferta de poupar minha vida e a vida do homem que eu amo, e ainda pede desculpas? Maxon, nunca tive tanto a agradecer.
— Vão rebaixar vocês dois a Oito — ele disse. — Todo mundo vai assistir.
— Mas Carter e eu ficaremos juntos, certo?
Ele confirmou com a cabeça.
— Então o que mais posso pedir? Eu aceito ser açoitada por isso. Eu aceitaria ser açoitada no lugar dele também se isso fosse possível.
Maxon abriu um sorriso triste.
— Carter literalmente pediu para ser açoitado no seu lugar.
Também sorri. E mais lágrimas – lágrimas mais felizes – me encheram os olhos.
— Não me surpreende.
Maxon balançou a cabeça de novo.
— Quando acho que estou começando a entender um pouco o que significa amar, vejo vocês dois, um pedindo para que o outro seja poupado. Então me pergunto se realmente entendo alguma coisa.
Apertei um pouco mais o paletó ao meu redor.
— Você entende. Sei que entende. — Encarei bem seus olhos. — Já ela... Talvez precise de um tempo.
Ele riu baixo.
— Ela vai sentir sua falta. Ela costumava me incentivar a ir atrás de você.
— Só uma amiga de verdade abriria mão de ser princesa pela outra. Mas eu não nasci para você nem para a coroa. Já encontrei o meu amor.
— Ela me disse algo uma vez — ele falou devagar — que jamais vou esquecer. Ela disse “o amor verdadeiro é geralmente o mais inconveniente”.
Corri os olhos pela cela e concordei.
— Ela estava certa.
Permanecemos em silêncio por mais uns instantes até que falei de novo.
— Estou com medo.
Ele me abraçou.
— Vai acabar rápido. O pior será a prévia do açoite, mas pense em outra coisa enquanto eles estiverem falando. E depois vou tentar arranjar para vocês os melhores remédios, os que são reservados a mim, para que vocês sarem depressa.
Comecei a chorar. Sentia medo e gratidão e mil outras coisas.
— Por ora, você precisa dormir o máximo que puder. Falei para Carter descansar também. Vai ajudar.
Concordei com a cabeça no ombro dele, e Maxon me apertou com mais força.
— O que ele disse? — perguntei. — Ele está bem?
— Ele levou uma surra, mas está melhor agora. Me pediu para dizer que te ama e que você precisa fazer tudo o que eu falar.
Suspirei, reconfortada por aquelas palavras.
— Tenho uma divida eterna com você.
Maxon não respondeu. Apenas manteve o abraço até eu me acalmar. Depois, me beijou na testa e virou para sair.
— Adeus — sussurrei.
Ele sorriu para mim e deu duas batidas na porta. Um guarda apareceu para acompanhá-lo.
Voltei a encostar na parede e encolhi as pernas por baixo do vestido, improvisando o paletó de Maxon como cobertor, Me deixei ser levada de volta às minhas lembranças...
* * *
Jada passava hidratante no meu corpo, um ritual que eu amava cada vez mais. Embora ainda fosse cedo – tínhamos acabado de jantar – e eu não estivesse com o menor sono, o deslizar daquelas mãos hábeis pelos meus braços indicava que o dia tinha chegado ao fim e que eu podia relaxar.
Aquele dia tinha sido especialmente cansativo. Além de um roxo no quadril – que teoricamente deveria estar com uma bolsa de gelo em cima – o Jornal Oficial fora bem estressante. Nos apresentaram de verdade para o público, e Gavril perguntou a todas o que achávamos do príncipe, o que nos fazia sentir saudade de casa e como ia nosso relacionamento com as outras. Respondi com uma voz que mais parecia um piado de passarinho. Apesar das minhas tentativas de manter a calma, minha voz subia uma oitava a cada resposta, tamanha era minha ansiedade. Com certeza Silvia teria algo a comentar sobre isso. Claro que não pude deixar de me comparar com as outras. Tiny não se saiu muito bem, então pelo menos não fui a pior das piores. Mas era difícil dizer quem tinha ido melhor. Bariel ficou tão à vontade diante da câmera; Kriss também. Não me surpreenderia se as duas chegassem à Elite.
America também estava maravilhosa. Isso não deveria ter me surpreendido, mas agora me dei conta de que nunca tive amigas de casta inferior. Me senti tão esnobe por isso. America era minha confidente mais íntima desde que chegamos ao palácio. E se eu não era capaz de figurar entre as concorrentes mais fortes, a presença dela no topo me deixava animada.
Claro que eu sabia que qualquer uma seria melhor para Maxon do que Celeste. Eu ainda era incapaz de acreditar que ela tinha rasgado o vestido de America. E saber que ainda por cima ela escapara ilesa era desanimador. Eu não conseguia imaginar ninguém contando a Maxon o que Celeste tinha feito, o que a deixava livre para continuara nos torturar. Entendia que ela quisesse ganhar – caramba, todas nós queríamos – mas ela ia longe demais. Eu não a suportava.
Felizmente, os dedos ágeis de Jada tiravam toda a tensão do meu pescoço, e a figura de Celeste começou a se apagar, assim como minha voz estridente e a postura incômoda e a lista de preocupações que acompanhava os esforços para me tomar princesa.
Quando uma batida soou na porta, tive esperança de que fosse Maxon, apesar de saber que isso não tinha fundamento. Talvez fosse America, e então poderíamos tomar um chá na minha sacada ou dar um passeio nos jardins.
Mas quando Nina atendeu a porta, deu com um guarda – aquele que eu tinha conhecido mais cedo – parado no corredor. Ele lançou um olhar por cima de Nina, sem se incomodar com o protocolo.
— Senhorita Marlee! Vim ver como está!
Ele parecia tão animado com a visita que não consegui segurar o riso.
— Entre, por favor — convidei, interrompendo meu momento de vaidade e levantando. — Sente. Posso pedir para as criadas nos servirem um pouco de chá.
Ele negou com a cabeça.
— Não quero tomar seu tempo. Só queria ter certeza de que você não ficou aleijada com aquele tombo.
Pensei que estivesse com as mãos para trás para manter o mínimo de formalidade, mas na verdade ele estava escondendo um buquê de flores, que me entregou fazendo graça, com um gesto pomposo.
— Own! — exclamei, aproximando o buquê do rosto. — Obrigada!
— Não foi nada. Sou amigo de um dos jardineiros, e ele arrumou as flores para mim.
Nina se aproximou discretamente.
— Quer que eu arrume um vaso, senhorita?
— Por favor — respondi, entregando as flores. — Para a sua informação — eu disse, voltando a olhar para o guarda — estou muito bem. Um pequeno roxo, mas nada sério. E aprendi uma valiosa lição sobre salto alto.
— Que botas são infinitamente melhores?
Ri de novo.
— Claro. Tenho planos de adicionar muito mais botas ao meu guarda-roupa.
— Você será a única responsável pelo novo rumo na moda do palácio! E, quando isso acontecer, poderei dizer que te conheci.
Ele riu da própria piada e nós dois continuamos ali, sorrindo um para o outro. Tive a sensação de que ele não queria ir embora... e então percebi que eu também não queria que ele fosse. O sorriso dele era tão terno, e fazia tempo que eu não ficava tão à vontade com alguém.
Infelizmente, ele se deu conta de que seria estranho permanecer no meu quarto e fez uma reverência rápida.
— Acho melhor ir embora. Meu turno é longo amanhã.
— De certa forma, o meu também — respondi com um suspiro.
Ele sorriu.
— Espero que se sinta melhor. Tenho certeza de que vou te ver por aí.
— Eu também. E obrigado por ser tão prestativo hoje, soldado... — olhei para o distintivo antes de completar: — Woodwork.
— Sempre às ordens, senhorita Marlee.
Ele fez uma reverência e, em seguida, retirou-se para o corredor.
Shea fechou a porta com delicadeza quando ele saiu.
— Que cavalheiro. Vir aqui para ver como a senhorita está — comentou.
— Pois é — Jada concordou. — Os soldados nem sempre acertam, mas esse lote parece bom.
— Este soldado com certeza é bom — eu disse. — Preciso falar dele para o príncipe Maxon. Talvez o soldado Woodwork mereça uma recompensa por sua gentileza.
Fui para a cama mesmo sem estar cansada. Durante as horas de sono, o número de criadas caía de três para uma, e esse era o máximo de solidão que eu podia ter. Nina trouxe um vaso azul que ficava lindo com as flores amarelas.
— Coloque aqui, por favor — pedi, e ela o pôs bem ao lado da minha cama.
Fiquei olhando as flores, e um sorriso se insinuava em meus lábios. Eu sabia que jamais falaria com o príncipe Maxon sobre o soldado Woodwork, apesar de ter acabado de dizer que o faria. Não sabia bem porquê, mas tinha certeza de que o guardaria pra mim.
* * *
O rangido da porta se abrindo me fez acordar sobressaltada. Levantei na hora e puxei o paletó de Maxon para cima dos ombros.
Um guarda entrou sem nem se dar ao trabalho de me encarar nos olhos.
— Estenda as mãos.
Estava tão acostumada com todos acrescentando “senhorita” às frases que demorei um segundo para responder quando ele falou comigo desse jeito. Por sorte, esse guarda não parecia a fim de castigar minha lentidão. Estiquei os braços na frente do corpo e ele os algemou com correntes pesadas. Quando soltou o peso das correntes, meu corpo até pendeu um pouco para a frente.
— Ande — ele ordenou, e eu o segui pelo corredor.
Carter já estava lá, com uma aparência péssima. As roupas dele estavam ainda mais imundas do que as minhas, e ele parecia ter dificuldade para manter o corpo ereto. No instante em que me viu, porém, seu rosto se acendeu num sorriso que lembrava fogos de artifício, fazendo uma ferida em seu lábio reabrir e começar a sangrar. Consegui abrir o menor dos sorrisos antes que os guardas começassem a nos conduzir ruma à escadaria ao final do corredor.
Com base nas nossas fugas para os abrigos, eu sabia que o palácio tinha mais passagens secretas do que qualquer um poderia supor. Na noite anterior fomos levados para as celas através de uma porta que eu sempre tinha pensado ser um armário de toalhas. Seguíamos agora pelo mesmo caminho para o primeiro andar.
Quando terminamos de subir, o guarda que nos conduzia vociferou:
— Esperem.
Carter e eu ficamos atrás da porta entreaberta, à espera de sermos escoltados para a nossa dolorosa e humilhante punição.
— Sinto muito — ele murmurou.
Levantei os olhos para ele, e mesmo com o lábio ensanguentado e o cabelo desgrenhado, só conseguia enxergar o garoto que insistiu em me levar para a ala hospitalar, o garoto que me trouxe flores.
— Eu não sinto — repliquei com a voz mais firme possível.
Num instante, todos os momentos roubados que compartilhamos me passaram pela cabeça. Vi todas as vezes em que nossos olhares se encontraram e desviaram logo em seguida; todas as vezes em que ele estava por perto; cada piscada sua quando eu entrava na sala de jantar; cada riso baixo que eu deixava escapar ao passar por ele no corredor.
Tínhamos construído um relacionamento no meio de todas as nossas obrigações no palácio, e se naquele momento eu estivesse caminhando para a minha morte, me esforçaria ao máximo para aceitar a situação e me dar por satisfeita. Eu tinha encontrado minha alma gêmea. Eu sabia disso. E havia muito amor no meu coração para que sobrasse espaço para o arrependimento.
— Vamos ficar bem, Marlee — Carter prometeu. — Não importa o que aconteça daqui para a frente, vou cuidar de você.
— E eu vou cuidar de você.
Carter se inclinou para me beijar, mas os guardas o detiveram.
— Basta! — um deles gritou conosco.
Finalmente a porta se abriu por inteiro, e Carter foi empurrado para fora antes de mim.
O sol da manhã entrava pelas portas da frente e inundava o palácio, e precisei olhar para o chão para conseguir aguentar. Por mais desnorteante que fosse a luz, os gritos ensurdecedores da multidão à espera de assistir o espetáculo eram piores. Quando irrompemos do lado de fora, ergui a cabeça, apertei meus olhos e pude avistar uma área com assentos especiais ao meu lado. Doeu no coração ver America e May bem na fileira da frente. Depois de o guarda me dar um empurrão e quase me derrubar, levantei o olhar mais uma vez à procura dos meus pais, rezando para que eles já tivessem partido.
Minhas preces não foram atendidas.
Eu sabia que Maxon era bondoso demais para fazer isso. Se ele tinha tentado evitar que eu recebesse qualquer punição, não poderia ter sido ideia dele fazer minha mãe e meu pai assistirem tudo ao vivo. Não queria ceder nenhum espaço do meu coração para a raiva, mas eu sabia quem era o responsável por isso, e uma brasa de ódio pelo rei começou a arder dentro de mim.
De repente, arrancaram o paletó de Maxon dos meus ombros e me botaram de joelhos diante de um bloco de madeira. Removeram as correntes de metal e amarraram tiras de couro nos meus punhos.
— É um crime para pena de morte! — alguém anunciou. — Mas, em sua misericórdia, o príncipe Maxon poupará a vida destes dois traidores. Vida longa ao príncipe Maxon!
As tiras nos punhos tornavam tudo muito real. O medo tomou conta de mim e comecei a chorar. Olhei para minhas mãos delicadas, para lembrar delas como eram naquele instante, desejando que pudesse usá-las para secar as lágrimas. Então me voltei para Carter.
Embora a estrutura a que ele estava amarrado dificultasse, ele esticou o pescoço para poder me ver. Foquei nele. Eu não estava só. Tínhamos um ao outro. A dor era temporária, mas eu teria Carter para sempre. Meu amor, para sempre.
Ainda que eu pudesse sentir o corpo tremer de medo, também sentia um orgulho estranho. Não que algum dia fosse me gabar de ser açoitada por amor, mas me dei conta de que algumas pessoas jamais saberiam como é especial ter alguém. Eu sabia. Eu tinha uma alma gêmea. E faria qualquer coisa por ele.
— Eu te amo, Marlee — Carter gritou sobre o ruído da multidão. — Vamos ficar bem, eu prometo.
Minha garganta estava seca. Não consegui responder. Acenei com a cabeça, para que ele soubesse que eu tinha ouvido, mas fiquei decepcionada comigo mesma por ser incapaz de dizer que também o amava.
— Marlee Tames e Carter Woodwork! — Virei em direção ao som de nossos nomes. — Vocês dois estão destituídos de suas castas. São os mais inferiores dos inferiores. São Oito!
O povo comemorou, divertindo-se com nossa humilhação.
— E para infligir em ambos a vergonha e a dor que trouxeram à Sua Majestade, vocês serão açoitados com quinze golpes. Que suas cicatrizes lhes recordem dos seus muitos pecados!
O homem deu um passo para o lado e ergueu os braços para ser ovacionado uma última vez. Observei os mascarados que tinham amarrado Carter e eu se aproximarem de um balde fundo e puxarem varas longas e encharcadas. Os discursos tinham chegado ao fim, e o show estava prestes a começar.
Dentre as diversas coisas que poderia ter pensado, naquele exato instante lembrei de uma aula de história de anos atrás. Nosso tutor comentou que diziam que antigamente os maridos tinham autorização para bater nas mulheres, mas apenas se usassem uma vara que não fosse mais espessa do que seu polegar.
A vara que estávamos prestes a encarar não passaria nesse teste. Desviei o olhar quando eles começaram a agitar as varas, se preparando. Carter respirou fundo algumas vezes, depois engoliu em seco e voltou a focar em mim. De novo, meu coração se encheu de amor. Os açoites seriam bem piores para ele. Talvez saísse dali sem conseguir nem andar, mas se preocupava comigo.
— Um!
Não estava nem um pouco preparada para o golpe e gritei com o impacto. Depois, a dor diminuiu por um instante, e pensei que talvez não seria tão ruim. Então, do nada, minha pele começou a arder. A ardência aumentou e aumentou até...
— Dois!
Eles marcavam com precisão o intervalo entre os golpes. Assim que a dor atingia o pico, eles a renovavam. Comecei a gritar pateticamente enquanto observava as mãos tremerem de agonia.
— Vamos ficar bem! — Carter insistiu, aguentando a própria tortura para amenizar a minha.
— Três!
Depois desse golpe, cometi o erro de fechar as mãos, pensando que isso diminuiria a dor. Muito pelo contrário: a pressão a deixou dez vezes pior, e soltei um som estranho e gutural.
— Quatro!
Aquilo era sangue?
— Cinco!
Era sangue com certeza.
— Vai acabar logo — Carter prometeu. Soava tão fraco. Eu queria que ele poupasse suas energias.
— Seis!
Não dava. Eu não aguentava mais. Não havia como tolerar mais dor do que aquilo. Mais dor seria morte na certa.
— Amo... você.
Esperei o próximo golpe vir, mas parecia ter havido um descompasso na sessão.
Ouvi alguém gritar meu nome; quase parecia que iam me salvar. Tentei olhar para os lados, o que foi um erro.
— Sete!
Gritei no ato. Apesar de a espera pelos golpes ser quase insuportável, ser pega de surpresa por eles era ainda pior. Minhas mãos tinham sido rasgadas; eram agora uma massa inchada de carne viva. E quando a vara desceu de novo, meu corpo desistiu, e felizmente o mundo ficou escuro e pude voltar aos meus sonhos do passado...
* * *
Os corredores davam uma sensação de vazio tão grande. Agora que restavam apenas seis de nós, o palácio começava a parecer grande demais. Como a rainha Amberly vivia assim? Devia ser uma vida muito isolada. Às vezes me dava vontade de gritar só para ouvir alguma coisa.
Uma gargalhada melodiosa me chegou aos ouvidos, e quando virei na direção dei com America e Maxon no jardim. Ele estava com as mãos para trás enquanto ela caminhava de costas, agitando os braços no ar como se contasse uma história. Quando ela concluiu, exagerando nos gestos, Maxon inclinou o corpo para a frente e fechou os olhos de tanto rir. A impressão era de que ele mantinha as mãos para trás porque se não se segurasse acabaria tomando minha amiga nos braços ali mesmo, naquele instante. Maxon aparentemente sabia que tal atitude seria botar o carro na frente dos bois, que America poderia se assustar. Eu admirava a paciência dele e me alegrava em ver que avançava rumo à melhor escolha que poderia fazer para si mesmo.
Talvez eu não devesse ficar tão alegre em perder, mas não conseguia evitar. Os dois eram bons demais juntos. Ele oferecia controle ao caos dela; ela, leveza à seriedade dele.
Continuei a assistir à cena, enquanto pensava que pouco tempo antes nós duas estivemos naquele mesmo lugar, e quase lhe confessei um segredo meu. Mas segurei a língua. Confusa como estava, sabia que não podia dizer nada.
— Lindo dia.
Quase dei um pulo ao ouvir isso, mas assim que meu cérebro reconheceu a voz dele, deu início a uma série de outras reações. Corei, meu coração disparou, e me senti uma completa boba por ficar tão contente em vê-lo.
Ele abriu um sorriso travesso que me fez derreter.
— É mesmo — eu disse. — Como você está?
— Tudo bem — ele respondeu, mas com um sorriso menor e a testa franzida.
— O que houve?— perguntei baixinho.
Ele engoliu em seco, pensativo. Depois, olhou ao redor para conferir se estávamos a sós e aproximou o rosto do meu.
— Há algum horário em que todas as criadas saem do quarto?— sussurrou. — Em que eu possa ir conversar com você?
Que vergonha do barulho alto que meu coração fazia diante da ideia de ficar a sós com ele.
— Sim. Elas saem para almoçar juntas mais ou menos à uma.
— Vejo você um pouco depois da uma, então.
Ele se retirou, com um sorriso que ainda parecia triste. Talvez eu devesse ter me preocupado mais, me interessado mais em saber o que o afligia. Mas só conseguia pensar em como estava feliz porque o veria de novo em breve.
Voltei a olhar através da janela e a observar America com Maxon. Eles passaram a caminhar lado a lado. Na mão dela, uma flor, que ela carregava sem cuidado, balançando para frente e para trás. Maxon ensaiou tirar a mão das costas e passar pelo ombro dela, mas logo fez uma pausa e a pós de novo atrás de si.
Suspirei. Eles perceberiam cedo ou tarde. E eu não sabia se queria ou não que isso acontecesse. Não estava pronta para deixar o palácio. Ainda não.
Mal toquei o almoço. Estava ansiosa demais. E apesar de não ter chegado aos exageros que fazia por Maxon algumas semanas antes, me peguei olhando meu reflexo em qualquer superfície que eu passava para conferir se estava tudo no lugar.
Não estava. Os olhos dessa Marlee eram maiores, e sua pele brilhava mais. Até a postura estava diferente. Eu estava diferente.
Pensei que a ausência das criadas me ajudaria a relaxar, mas isso só me deixou mais ansiosa. O que ele precisava dizer? Por que precisava dizer a mim? Era sobre mim?
Esperei com a porta aberta, o que foi uma tolice, porque tive certeza de que ele me observou andar em círculos por um tempo antes de limpara garganta.
— Soldado Woodwork — eu disse, um pouco animada demais, de novo com voz de passarinho.
— Olá, senhorita Marlee. Agora é um momento bom? — ele perguntou antes de entrar com passos incertos.
— Sim. As criadas acabaram de sair e só voltam daqui a uma hora mais ou menos. Por favor, sente — convidei com a mão estendida para a mesa.
— Acho melhor não, senhorita. Tenho a sensação de que preciso falar rápido e sair.
— Ah.
Eu tinha alimentado uma espécie de esperança frágil em torno do encontro, por mais idiota que isso fosse, e agora... Bom, não sabia o que esperar.
Percebi o tamanho do desconforto dele e me senti mal. Não conseguia suportar a ideia de que eu contribuía com isso de alguma maneira.
— Soldado Woodwork — comecei em tom baixo. — Pode me dizer o que quiser. Não precisa ficar tão nervoso.
Ele respirou fundo.
— Viu? É esse tipo de coisa.
— O quê?
Ele balançou a cabeça e recomeçou:
— Isso não é justo. Não te culpo por nada. Na verdade, queria vir aqui e assumir isso e pedir perdão.
Franzia testa.
— Ainda não entendi.
Ele mordeu o lábio, me observando.
— Acho que te devo desculpas. Desde que te conheci, passei a mudar meu trajeto na esperança de te ver de passagem no corredor ou te dar um oi.
Tentei esconder o sorriso. Eu fazia a mesma coisa.
— Nossas conversas estão entre os melhores momentos que tive no palácio. Ouvir sua risada, ou escutar você falar do seu dia, ou comentar com você algum assunto que talvez nenhum de nós entenda direito, enfim, adoro isso tudo.
Os lábios dele se curvaram naquele sorriso travesso, e ri baixo ao pensar naquelas conversas. Eram sempre curtas demais ou cochichadas demais. Não havia ninguém com quem eu gostasse mais do que com ele.
— Também adoro — admiti.
O sorriso dele vacilou.
— Acho que é por isso que precisamos parar.
Será que alguém realmente tinha me dado um soco no estômago, ou eu estava imaginando coisas?
— Acho que estou ultrapassando o limite. Minha intenção sempre foi ser simpático com você, mas quanto mais te vejo, mais tenho a sensação de que preciso esconder alguma coisa. E se preciso esconder, é porque estou ficando próximo demais de você.
Pisquei para não chorar. Eu tinha feito a mesma coisa desde o primeiro dia, dizendo a mim que não era nada mesmo sabendo que era.
— Você é dele — o soldado continuou, agora com os olhos baixos. — Sei que você é a favorita do povo. Claro que é. A família real com certeza vai levar isso em conta antes de o príncipe fazer sua escolha final. Será que continuar cochichando com você nos corredores é um ato de traição? Deve ser.
Ele balançou a cabeça mais uma vez na tentativa de ordenar os sentimentos.
— Você tem razão — sussurrei. — Vim pra cá por causa dele e prometi ser fiel. Se existe entre nós algo que pode ser considerado mais do que platônico, temos que cortar.
Ambos ficamos parados, com os olhos fixos no chão. Eu estava com dificuldade de respirar. Claramente, minha esperança era de que a conversa tivesse ido na direção oposta, mas só tive consciência plena disso quando ela não foi.
— Não devia doer tanto — murmurei.
— Não, não devia — concordou ele.
Baixei a cabeça e comecei a esfregar a palma da mão num lugar do peito que me doía. Levantei o olhar de repente e vi Carter fazendo exatamente a mesma coisa.
Nesse momento tive certeza. Certeza de que ele sentia seja lá o que eu sentia. Talvez não devesse ter acontecido, mas como negar agora? E se Maxon me escolhesse mesmo? Seria obrigada a dizer que sim? E se eu ficasse presa ali, casada com um homem enquanto observava a pessoa que eu queria de verdade circulando pela minha casa todos os dias?
Não.
Eu não ia fazer isso comigo mesma.
Deixando de lado todos os meus conceitos de como uma dama deveria se comportar, corri para fechar a porta. Então voei até Carter, pus a mão atrás do seu pescoço e o beijei.
Ele hesitou por uma fração de segundo antes de me envolverem seus braços e me abraçar como se a vida dele dependesse disso. Quando nos afastamos, ele balançou a cabeça e maldisse a si mesmo:
— Perdi essa guerra. Sem chance de retirada agora.
Mas embora as suas palavras estivessem cheias de remorso, o sorrisinho no seu rosto denunciava que ele estava tão feliz quanto eu.
— Não posso ficar sem você, Carter — eu disse, usando pela primeira vez o nome que ele me revelara recentemente.
— Isso é perigoso. Você compreende, não é? Nós dois podemos acabar mortos.
Fechei os olhos e fiz que sim com a cabeça enquanto lágrimas desciam pelo meu rosto. Viver com ou sem o amor dele: para mim, as duas opções significavam flertar com a morte.
* * *
Acordei ao som de gemidos. Por um segundo, não sabia onde estava. Então tudo desabou de novo sobre mim. A festa de Halloween. O açoite. Carter...
O cômodo era mal iluminado. Olhando ao redor, vi que o espaço era suficiente apenas para os leitos em que eu e ele nos esparramávamos. Tentei me apoiar para levantar e soltei um grito agudo na hora. Me perguntei por quando tempo minhas mãos ficariam inúteis.
— Marlee?
Me virei para Carter, me erguendo sobre os cotovelos:
— Estou aqui. Estou bem.
Tentei usar as mãos.
— Ah, querida, sinto muito — a voz dele soava como se ele tivesse pedras na garganta.
— Como você está?
— Vivo — ele brincou. Estava deitado de barrigada para baixo, mas dava para ver o sorriso em seu rosto. — Dói só de mexer.
— Quer ajuda?
Levantei devagar e o contemplei. Ele estava coberto por um lençol da cintura para baixo, e eu não fazia ideia do que podia fazer para aliviar sua dor. Vi uma mesa no canto do quarto com frascos e bandagens em cima, além de um pedaço de papel, e me arrastei até ela.
Ele não tinha assinado, mas eu conhecia a caligrafia de Maxon.
Quando vocês acordarem, troquem os curativos. Usem a pomada no frasco. Apliquem com algodão para evitar infecções e tentem não apertar demais as gazes. Os comprimidos também vão ajudar. Depois descansem. Não tentem sair do quarto.
— Carter, tem remédios para nós.
Com cuidado, desrosquei a tampa usando apenas a ponta dos dedos. O cheiro da substância levemente espessa lembrava ervas.
— O quê? — ele perguntou virando o rosto para mim.
— Também temos gazes e um guia de instruções.
Olhei as minhas mãos cheias de bandagens e tentei pensar em como ia me virar com aquilo.
— Eu ajudo você — Carter se ofereceu como se lesse a minha mente.
Abri um sorriso.
— Vai ser difícil.
— Com certeza — ele murmurou. — Não foi bem assim que imaginei a primeira vez que você me veria pelado.
Não consegui conter a risada que saiu da minha boca. E me apaixonei de novo. Em menos de um dia, tinha sido espancada e rebaixada a Oito, e agora esperava um exílio para sabe-se lá onde. Ainda assim, eu ria.
Que princesa poderia ter mais que isso?
Era impossível medir quanto tempo tinha passado, mas não tentamos chamar ninguém ou bater na porta.
— Imagina para onde vão nos mandar? — Carter perguntou.
Eu estava no chão, ao lado dele, correndo a ponta dos dedos pelo seu cabelo curto.
— Se pudesse escolher, preferiria um lugar quente em vez de frio.
— Também tenho a impressão de que vai ser um desses dois extremos.
Suspirei.
— Estou com medo de não ter casa.
— Não fique. Posso estar um pouco inútil no momento, mas consigo cuidar da gente. Até sei como construir um iglu se formos parar num lugar frio.
Achei graça.
— Sabe mesmo?
Ele confirmou com a cabeça.
— Vou construir o iglu mais lindo, Marlee. Todo mundo vai ficar com inveja.
Dei vários beijos na cabeça dele.
— Você não é inútil, aliás. Não é que...
Um som veio da tranca da porta, que se abriu em seguida. Três pessoas entraram cobertas com capuzes e capas marrons. Senti uma pontada de medo.
Então a primeira pessoa tirou o capuz e se revelou. Arfei surpresa e levantei com um pulo para abraçar Maxon, esquecendo de novo dos machucados e gemendo de dor.
— Vai passar — Maxon prometeu enquanto eu recolhia as mãos. — Leva uns dias para tudo voltar ao normal, mas, Carter, até você vai voltar a andar sozinho logo. Vai sarar mais rápido que a maioria das pessoas.
Maxon se voltou para as outras duas figuras encapuzadas.
— Estes são Juan Diego e Abril. Trabalhavam no palácio até hoje. Agora vocês vão trocar de lugar com eles. Marlee, se quiser ir com Abril para o canto, os cavalheiros e eu desviaremos o olhar enquanto vocês trocam de roupa. Aqui — ele disse ao me entregar uma capa parecida com a dela. — Isto vai lhes dar um pouco de privacidade.
Olhei para o rosto tímido de Abril.
— Claro.
Fomos para o canto, ela tirou a saia e me ajudou a vesti-la. E eu tirei o vestido e o entreguei a ela.
— Carter, vamos ter que colocar sua calça de volta. Vamos ajudar você a levantar.
Mantive o rosto virado para o lado enquanto tentava não ficar tensa com os sons que Carter emitia.
— Obrigada — sussurrei a Abril.
— Foi ideia do príncipe — ela explicou baixinho. — Ele deve ter passado o dia inteiro examinando os registros à procura de alguém que tivesse vindo do Panamá quando descobriu para onde vocês iriam. Nós nos vendemos como funcionários ao palácio para sustentar nossa família. Hoje vamos voltar para casa.
— Panamá. Estávamos curiosos para saber onde iríamos parar.
— Seria uma grande crueldade o rei mandar vocês para lá depois de tudo — ela murmurou.
— Como assim?
Abril lançou um olhar por cima do ombro para o príncipe, para ter certeza de que ele não nos escutava.
— Cresci como Seis lá, e já não foi muito bom. Os Oito? São mortos por diversão de vez em quando.
Abri a boca, incapaz de acreditar.
— O quê?
— De meses em meses a gente encontrava morto, no meio da rua, alguém que tinha passado um tempão pedindo esmola. Ninguém sabe quem faz isso. Outros Oito talvez? Os Dois e Três ricos? Rebeldes? Mas acontece. Vocês dois tinham muitas chances de morrer.
— Agora segure meu braço — Maxon instruiu, e me virei para ver Carter inclinado contra o príncipe, já com um capuz na cabeça. — Muito bem. Abril, Juan Diego, os guardas vão vir para este quarto. Usem as gazes e caminhem como se estivessem feridos. Acho que o plano deles é simplesmente botar vocês num ônibus e despachar os dois. Apenas mantenham a cabeça baixa. Teoricamente, vocês são Oito. Ninguém vai ligar.
— Obrigado, Alteza — Juan Diego disse. — Nunca pensei que veríamos nossa mãe de novo.
— Sou eu que agradeço — Maxon emendou. — A disposição de vocês para deixar o palácio salvou a vida deles. Não esquecerei o que vocês fizeram por eles.
Olhei Abril uma última vez.
— Muito bem — Maxon disse ao pôr de novo o capuz. — Vamos.
Com Carter mancando e apoiado em Maxon, o príncipe nos conduziu para o corredor.
— As pessoas não vão desconfiar? — perguntei aos sussurros.
— Não — Maxon respondeu enquanto conferia o caminho a cada esquina. — Funcionários de nível mais baixo, como faxineiros e ajudantes de cozinha, não podem aparecer no andar de cima. Quando é absolutamente necessário que eles subam as escadas, se cobrem deste jeito. Qualquer um que nos vir vai pensar que terminamos uma tarefa e estamos voltando para o quarto.
Maxon nos conduziu por uma longa escadaria que terminava num corredor estreito com uma fileira de portas.
— Aqui — ele chamou.
Acompanhamos o príncipe porta adentro. No pequeno cômodo, uma cama estava encaixada em um dos cantos, com um minúsculo criado-mudo ao lado. Parecia que uma garrafa de leite e uns pães nos esperavam, e minha barriga roncou só de ver comida. Um tapete fino estendia-se bem no meio do piso, e havia algumas prateleiras na parede onde ficava a porta.
— Sei que não é muito, mas vocês estarão seguros aqui. Sinto não poder fazer mais.
Carter balançou a cabeça.
— Como você pode nos pedir desculpas? Era para nossa vida ter acabado algumas horas atrás; mas estamos vivos, juntos e temos um lar. — Maxon e ele trocaram um olhar. — Sei que o que fiz foi tecnicamente uma traição, mas não tinha nada a ver com falta de respeito por você.
— Eu sei.
— Ótimo. Então quando digo que ninguém neste reino será mais leal a você do que eu, espero que acredite.
Carter contraiu o corpo de dor e se desequilibrou sobre o príncipe.
— Vamos pôr você na cama.
Ajudei a apoiar o outro ombro de Carter e, junto com Maxon, o deitamos de bruços. Ele ocupou a maior parte da cama, então eu teria que dormir aquela noite no tapete.
— Uma enfermeira virá ver como vocês estão de manhã — Maxon explicou. — Podem tirar uns dias de descanso, mas precisam passar o máximo de tempo possível aqui dentro. Cuidarei para que o nome de vocês apareça na escala de trabalho oficial daqui a três ou quatro dias, e então alguém da cozinha lhes dará algo para fazer. Não sei exatamente qual será o trabalho, mas deem o seu melhor naquilo que pedirem. Tentarei ver como vocês estão sempre que puder. Por ora, ninguém saberá que estão aqui. Nem os guardas, nem a Elite, nem mesmo suas famílias. Vocês vão interagir com um grupo pequeno de funcionários do palácio, e as chances de eles reconhecerem vocês são mínimas. Ainda assim, daqui em diante seus nomes serão Mallory e Carson. Esta é a única forma que tenho de proteger vocês.
Levantei o olhar para ele e pensei que, se pudesse escolher um marido para minha melhor amiga, seria ele.
— Você fez tanto por nós. Obrigada.
— Gostaria de ter feito mais. Vou tentar recuperar alguns objetos pessoais, se conseguir. Além disso, há algo mais que eu possa fazer por vocês? Se for razoável, prometo tentar.
— Uma coisa — Carter disse com a voz cansada. — Quando puder, pode encontrar um sacerdote para nós?
Precisei de um segundo para compreender a intenção por trás daquele pedido, e no instante em que compreendi, meus olhos se encheram de lágrimas de felicidade.
— Perdão — ele acrescentou. — Sei que não é o mais romântico dos pedidos de casamento...
— Eu sei, mas é um pedido mesmo assim — balbuciei.
Observei os olhos dele marejarem. Por uns momentos, até esqueci que Maxon estava no quarto.
— Será um prazer. Não sei quanto tempo vai levar, mas vou dar um jeito. — Ele sacou do bolso os remédios do andar de cima e os deixou ao lado da comida. — Usem a pomada de novo hoje à noite e descansem o máximo que puderem. A enfermeira cuidará do resto amanhã.
Concordei com a cabeça.
— Vou tomar conta de nós dois.
Com um sorriso, Maxon se retirou do quarto.
— Quer comida, noivo? — perguntei.
Carter abriu um sorriso largo.
— Ah, obrigado, noiva, mas na verdade estou meio cansado.
— Tudo bem, noivo. Por que você não dorme um pouco?
— Eu dormiria melhor se minha noiva estivesse comigo.
E então, esquecendo da fome, me enfiei naquela cama minúscula. Metade do meu corpo pendia da beirada, enquanto a outra metade estava esmagada sob Carter. Mas o sono me veio com uma facilidade impressionante.


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