Uma semana se passou. Clarkson não fizera nada além de me olhar de vez em quando. Meu coração estava partido. Acreditara tolamente que seria possível. Depois de superarmos o constrangimento da nossa primeira conversa, ele parecia desviar de seu caminho para me ver, para cuidar de mim.
Estava claro que isso havia acabado.
Tinha certeza de que logo Clarkson me mandaria embora. Meu coração sararia um tempo depois. Com sorte, conheceria alguém novo, e o que lhe diria? Ser incapaz de produzir um herdeiro valioso para o trono era algo hipotético, uma possibilidade distante.
Mas ser incapaz de produzir um Quatro sequer? Era muito para suportar.
Comia apenas quando achava que as pessoas estavam olhando. Dormia apenas quando não aguentava mais o cansaço. Meu corpo não ligava para mim, então por que eu ligaria para ele?
A rainha voltou das férias, as edições do Jornal continuavam, os intermináveis dias de sentar e sorrir emendavam-se uns nos outros. Nada disso me importava.
Eu estava no Salão das Mulheres, sentada à janela. O sol me fazia lembrar de Hondurágua, embora o clima fosse mais seco em Angeles. Imóvel, em oração, implorava a Deus para que Clarkson me mandasse de volta para casa. Estava envergonhada demais para escrever à minha família e contar as más notícias, mas estar cercada de todas aquelas garotas e suas aspirações de escalar castas piorava tudo.
Eu tinha limites. Não podia ter essa esperança. Pelo menos em casa não precisaria pensar mais nisso.
Madeline se aproximou por trás e acariciou minhas costas.
— Está tudo bem?
Forcei um sorriso débil.
— Só cansada. Sem novidades.
— Certeza? — insistiu, ajeitando o vestido para sentar. — Você parece… diferente.
— Quais são suas metas de vida, Madeline?
— Como assim?
— Quais são seus sonhos? Se você pudesse obter o máximo da vida, o que pediria?
Ela sorriu, pensativa.
— Seria a nova princesa, claro. Com milhões de admiradores e festas todos os finais de semana e Clarkson na coleira. Você não desejaria o mesmo?
— É um lindo sonho. Agora, se você fosse pedir o mínimo da vida, o que pediria?
— O mínimo? Por que alguém iria querer o mínimo? — ela brincou, sem compreender.
— Mas não deveria haver um mínimo? Não deveria haver um mínimo aceitável que a vida nos desse? É demais pedir um emprego que você não odeie, ou alguém para chamar de seu de verdade? É demais pedir um filho? Mesmo um filho que alguns consideram defeituoso? Será que eu não poderia ter ao menos isso? — Minha voz vacilou, e levei os dedos à boca, como se meus ossos frágeis fossem capazes de conter a dor.
— Amberly — sussurrou Madeline. — O que houve de errado?
Balancei a cabeça.
— Não é nada, só preciso descansar.
— Você não deveria estar aqui agora. Vamos para o seu quarto.
— A rainha vai ficar brava.
Ela riu.
— Quando ela não está brava?
— Quando está bêbada — respondi com um suspiro.
O riso de Madeline dessa vez saiu mais leve e verdadeiro, e ela cobriu a boca na esperança de não chamar muito a atenção. Vê-la daquele jeito melhorou meu humor.
Quando ela levantou, foi mais fácil ir atrás.
Madeline não fez mais perguntas, mas pensei em lhe contar tudo antes de voltar para casa. Seria bom que alguém soubesse.
Ao chegarmos no quarto, me virei para ela e lhe dei um abraço. Demorei para soltar, e ela não me apressou. Naqueles instantes, obtive o mínimo que necessitava da vida.
Caminhei até a cama, mas antes de me enfiar sob as cobertas, caí de joelhos e uni as mãos em prece.
— Será que é pedir demais?
Outra semana se passou. Clarkson mandou duas garotas para casa. Desejei com todas as forças que eu estivesse entre elas.
Por que não tinha sido eu?
Sabia que Clarkson não era lá muito polido, mas não o considerava cruel. Não imaginava que fosse me provocar com uma posição que jamais teria.
Me sentia uma sonâmbula, atravessando os estágios da competição como um fantasma que repete seus últimos passos de novo e de novo. O mundo parecia apenas uma sombra de si mesmo, e eu me arrastava por ele, fria e cansada.
Não demorou para as garotas pararem de perguntar. De tempos em tempos sentia o peso de seus olhares sobre mim. Contudo, já estava além do alcance delas, que pareciam compreender que o melhor era não se dar ao trabalho de insistir. Me encolhi tanto que já não era notada pela rainha… por quase ninguém, na verdade. Não ligava muito para isso, a sós com minhas preocupações.
Poderia ter continuado assim para sempre. Mas um dia – um dia tão insípido e maçante como os anteriores – estava tão alheia que não percebi a sala de jantar se esvaziar. Não registrei nada até um terno surgir diante de mim do outro lado da mesa.
— Você está doente.
Meu olhar encontrou o de Clarkson para logo em seguida desviar.
— Não, só estou mais cansada que o normal ultimamente.
— Você está magra.
— Já disse, tenho estado cansada.
Ele então deu um murro na mesa que me fez estremecer. Atônita, voltei a olhar para o rosto dele. Meu coração sonolento não sabia como reagir.
— Você não está cansada; está definhando — ele disse com firmeza. — Entendo o porquê, mas você precisa superar.
Superar? Superar?
Meus olhos marejaram.
— Com tudo o que o senhor sabe, como pode ser tão maldoso comigo?
— Maldoso? — redarguiu ele, quase cuspindo a palavra. — Isto é bondade. É tirar você da beira do abismo. Você vai se matar desse jeito. O que isso vai provar? O que isso vai trazer de bom, Amberly?
Por mais duras que fossem aquelas palavras, sua voz parecia acariciar meu nome.
— Preocupada que talvez não consiga ter um filho? E daí? Morta é que você não terá chances mesmo.
Ele então tomou o prato à minha frente – ainda cheio de presunto, ovos e frutas – e o empurrou na minha direção.
— Coma.
Sequei as lágrimas dos olhos e encarei a comida. Meu estômago dava voltas só de ver.
— É muito pesado. Não consigo comer.
Ele abaixou a voz e chegou mais perto.
— Então o que você consegue comer?
Dei de ombros.
— Pão, talvez.
Clarkson levantou e estalou os dedos para chamar um mordomo.
— Alteza — saudou o criado, curvando-se.
— Desça à cozinha e traga pão para a senhorita Amberly. Vários tipos.
— Imediatamente, senhor.
O mordomo deu meia-volta e praticamente saiu correndo.
— E, pelo amor de Deus, traga um pouco de manteiga também! — Clarkson gritou atrás.
Senti uma nova onda de vergonha. Como se não bastasse estragar minhas chances com coisas que não podia controlar, era ainda mais humilhante arruiná-las com coisas que eu podia.
— Ouça — a doçura da voz dele me fez encará-lo novamente. — Jamais faça isso de novo. Não desista.
— Sim, senhor — balbuciei.
Ele balançou a cabeça.
— Pode me chamar de Clarkson.
Aquilo valeu cada grão da força que precisei para abrir um sorriso.
— Você precisa ser impecável, entendeu? Precisa ser uma candidata exemplar. Até pouco tempo atrás, não achava que teria de lhe dizer isso, mas agora parece que sim. Não dê a ninguém motivos para duvidar da sua competência.
Eu estava imóvel, pasma. O que ele queria dizer? Se meus pensamentos estivessem um pouco mais claros, teria perguntado.
Menos de um minuto depois, o mordomo retornou com uma bandeja repleta de pães em pedaços, fatias e tranças. Clarkson se afastou.
— Até mais — despediu-se com uma breve reverência e saiu, com as mãos atrás das costas.
— É o bastante, senhorita? — perguntou o mordomo.
Arrastei o olhar até a pilha de comida, fiz que sim com a cabeça, peguei uma fatia e mordi.
É estranho descobrir o quanto você é importante para pessoas que não sabia que se importavam tanto. Ou descobrir que a sua lenta desintegração pode se refletir em outras pessoas numa escala menor.
Os olhos de Martha marejaram quando pedi a ela que, se não fosse um incômodo, me trouxesse uma tigela de morangos. Quando ri de uma piada de Bianca, notei Madeline suspirar de alívio antes de se juntar a nós. E Clarkson…
A única outra vez em que o vira nervoso pra valer fora na noite em que flagramos a briga de seus pais; foi então que descobri que seu breve acesso de loucura tinha sido uma maneira de demonstrar o quão importante ambos eram para ele. O tanto que ele se chateou comigo… Não era meu jeito favorito para ele demonstrar que eu era importante. Mas se ele só conhecia esse jeito, fazia sentido.
Naquela noite, ao me acomodar na cama, prometi duas coisas a mim mesma.
Primeira: se Clarkson se preocupava tanto comigo, eu ia parar de me fazer de vítima. Dali para a frente, seria uma competidora. Segunda: eu jamais daria a Clarkson Schreave um motivo para ficar irritado daquele jeito de novo.
Seu mundo parecia um furacão.
Eu seria o seu centro.


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