terça-feira, 2 de agosto de 2016

Capítulo 7

Sempre levava um tempo para me adaptar às luzes cegantes do estúdio. E havia também o peso do vestido cravejado de pedras que minhas criadas insistiram para eu usar. As duas coisas somadas tornavam a hora do Jornal Oficial quase insuportável.
O novo repórter entrevistava as garotas. Ainda havia muitas remanescentes, então era fácil passar despercebida. Naquele momento, essa era minha meta. Por outro lado, se eu precisasse responder alguma pergunta, pelo menos ela viria de Gavril Fadaye.
O antigo apresentador, Barton Allory, se aposentou na noite em que as novas candidatas da Seleção foram reveladas, dividindo o momento com seu substituto, escolhido a dedo. Apenas vinte e dois anos, parte de uma respeitável linhagem de Dois e dono de uma personalidade radiante: era fácil gostar de Gavril. Fiquei triste por ver Barton partir… mas nem tanto.
— Senhorita Piper, na sua opinião, qual é o papel principal de uma princesa? — Gavril perguntou.
O brilho intenso de seus dentes fez Madeline cutucar meu braço para chamar minha atenção.
Piper abriu um sorriso vitorioso e respirou fundo uma vez. Então duas vezes. E então o silêncio começou a ficar constrangedor.
Foi então que me dei conta: todas ficaríamos um pouco aterrorizadas com aquela pergunta. Lancei um olhar em direção à rainha, que sairia correndo assim que desligassem as câmeras. Ela observava Piper como se a desafiasse a falar depois daquela ordem para que ficássemos em silêncio.
Conferi o monitor: era doloroso assistir à cara de sofrimento da garota.
— Piper? — Pesha, que sentava ao seu lado, sussurrou.
Por fim, Piper acabou por balançar a cabeça.
Os olhos de Gavril revelavam que ele estava à procura de um jeito de salvar a situação. Barton com certeza saberia o que fazer, mas Gavril era novo demais no cargo.
Levantei a mão, e Gavril ficou grato ao me ver.
— Tivemos uma conversa tão longa sobre isso outro dia que acho que Piper não sabe nem por onde começar — falei entre risos, imitados por outras garotas. — Todas concordamos que nosso primeiro dever é para com o príncipe. Servi-lo é servir Illéa. Pode parecer uma descrição estranha para o cargo, mas fazer nossa parte permite que o príncipe faça a dele.
— Muito bem colocado, senhorita Amberly. — Gavril sorriu para em seguida passar para a próxima pergunta.
Não olhei para a rainha. Em vez disso, tratei de me endireitar no assento à medida que outra enxaqueca começava a despontar. Será que eram provocadas pelo estresse? Mas se fosse assim, então por que às vezes surgiam do nada?
Notei pelos monitores que as câmeras não estavam focadas em mim nem na minha fileira. Então me permiti esfregar um pouco a testa. No fim das contas, pelo menos minhas mãos estavam ficando mais suaves. Queria apoiar a cabeça no braço, mas não era possível. Mesmo que a falta de modos fosse perdoável, o vestido não me permitia dobrar tanto o corpo.
Mantive a postura e foquei em minha respiração. A dor crescia firme e forte, mas me esforcei para permanecer ereta. Já tinha lidado com a doença antes e em situações muito piores. Isso não é nada, disse a mim mesma. Só preciso ficar sentada.
As perguntas pareceram durar para sempre, ainda que Gavril não tivesse falado com todas as garotas. Uma hora as câmeras pararam de rodar, mas lembrei que ainda não era o fim. Antes de voltar para o quarto, ainda precisava ir para o jantar, que durava mais ou menos uma hora.
— Você está bem? — Madeline perguntou.
Fiz que sim com a cabeça.
— Um pouco cansada.
Ouvimos o som de risos e nos viramos para ver de onde vinha: o príncipe Clarkson conversava com algumas garotas da primeira fila.
— Gostei do cabelo dele esta noite — comentou Madeline.
Ele levantou o dedo para as senhoritas para interromper a conversa e contornou a multidão com os olhos em mim. Fiz uma breve reverência à medida que ele se aproximava e, quando fui levantar, senti sua mão em minhas costas, puxando-me para si e escondendo nossos rostos de olhares alheios.
— Você está doente?
Deixei escapar um suspiro.
— Tentei esconder. Estou com a cabeça latejando. Só preciso deitar.
— Tome meu braço — disse, oferecendo o cotovelo para que eu passasse a mão em torno dele. — Sorria.
Curvei os lábios. Apesar do desconforto, era mais fácil ao lado dele.
— É muito gentil da sua parte me dar o prazer de sua presença — ele comentou em voz alta o suficiente para que as garotas mais próximas pudessem ouvir. — Estou tentando lembrar qual é sua sobremesa predileta.
Não respondi, mas continuei a parecer feliz enquanto saíamos do estúdio.
Desmanchei o sorriso assim que cruzamos a porta. Quando chegamos ao fim do corredor, Clarkson me pegou no colo.
— Vou levá-la ao médico.
Apertei os olhos. Sentia náuseas de novo e meu corpo inteiro parecia encharcado de suor. Contudo, ficava mais confortável em seus braços do que em qualquer cadeira ou cama. Apesar de toda a tontura, estar aninhada com a cabeça em seu ombro era a melhor sensação do mundo.
Havia uma enfermeira nova na ala hospitalar, mas tão gentil que ajudou Clarkson a me botar em um leito e apoiar minhas pernas sobre um travesseiro.
— O doutor está dormindo — ela avisou. — Passou a noite e quase o dia inteiro de pé ajudando no parto de duas criadas. Dois meninos! Um depois do outro! Só quinze minutos de diferença.
A notícia feliz me fez sorrir.
— Não precisa incomodá-lo — falei. — É só uma enxaqueca que vai passar.
— Besteira — emendou Clarkson. — Chame uma criada para servir nosso jantar aqui. Esperaremos o doutor Mission.
A enfermeira concordou com a cabeça e se retirou.
— Não precisa fazer isso — cochichei. — Ele teve uma noite dura, e vou ficar bem.
— Eu seria omisso se não garantisse que você recebesse os cuidados adequados.
Na minha cabeça, tentei transformar aquelas palavras em algo romântico, mas soavam mais como se ele se sentisse obrigado. Ainda assim, se quisesse, ele poderia ter ido comer com as outras. Em vez disso, escolheu ficar comigo.
Belisquei o jantar, para não parecer rude, mas minha cabeça ainda causava mal estar.
A enfermeira me trouxe alguns remédios, de modo que quando o doutor Mission apareceu – com o cabelo úmido do chuveiro – eu já me sentia bem melhor. O latejar estava mais para uma leve palpitação do que para o badalar de um sino.
— Perdão pela demora, Alteza — ele se desculpou com uma reverência.
— Sem problemas — o príncipe respondeu. — Desfrutamos uma refeição adorável na sua ausência.
— Como está sua cabeça, senhorita? — perguntou o médico, já com os dedos no meu punho para verificar o pulso.
— Muito melhor. A enfermeira me deu alguns remédios que ajudaram muito.
O doutor sacou uma lanterninha e a acendeu em meus olhos.
— Talvez você devesse tomar algo diariamente. Sei que tenta resolver as enxaquecas depois que elas começam, mas talvez pudéssemos evitar que aparecessem. Não é certeza, mas verei o que posso lhe receitar.
— Obrigada — agradeci, cruzando os braços sobre o colo. — Como estão os bebês?
O médico ficou radiante.
— Absolutamente perfeitos. Saudáveis e gordos.
Abri um sorriso ao pensar nas duas novas vidas que começavam no palácio naquele dia. Será que seriam grandes amigos? Cresceriam contando a todos a história de como nasceram tão perto um do outro?
— Por falar em bebês, gostaria de conversar sobre os resultados dos seus exames.
Todo o humor se esvaiu do meu rosto e meu corpo inteiro. Endireitei a postura para me preparar. Dava para ler em sua expressão que eu estava prestes a receber uma má notícia.
— Seus exames mostram várias toxinas diferentes na corrente sanguínea. Se ainda aparecem com tamanha intensidade depois de semanas longe da sua província natal, meu palpite é que esses níveis eram muito mais altos quando você estava lá. Para algumas pessoas, isso não seria um problema. O corpo reage, se ajusta e pode viver sem quaisquer efeitos colaterais. Baseado no que você me contou sobre sua família, diria que é isso o que acontece com eles. Mas o nariz de uma de suas irmãs sangra de vez em quando, correto?
Confirmei com a cabeça.
— E você tem enxaquecas constantes?
Confirmei de novo.
— Suspeito que seu corpo seja incapaz de ignorar essas toxinas. Entre os exames e algumas informações pessoais que você me contou, acredito que esses acessos de cansaço, náusea e dor provavelmente continuarão pelo resto da sua vida.
Suspirei. Bom, aquilo não seria muito pior do que minha situação atual. E ao menos Clarkson não demonstrava incômodo com a minha condição.
— Também tenho motivos para me preocupar com sua saúde reprodutiva.
Encarei o doutor Mission estarrecida. Pelo canto dos olhos, notei Clarkson se agitar na cadeira.
— Mas… por quê? Minha mãe teve quatro filhos. E tanto ela como meu pai vieram de famílias grandes. Eu só fico cansada, só isso.
Doutor Mission permaneceu calmo, clínico, como se não estivesse discutindo uma das questões mais íntimas da minha vida.
— Sim, e apesar de a genética ajudar, com base nos resultados, parece que seu corpo não seria… um habitat favorável para um feto. E qualquer criança que você venha a conceber… — ele fez uma pausa e desviou brevemente os olhos para o príncipe antes de voltar a fixá-los em mim. — … poderá ser incapaz de… determinadas tarefas.
Determinadas tarefas. Não inteligente o bastante, não saudável o bastante, não bom o bastante para ser príncipe.
Senti um nó no estômago.
— Tem certeza? — perguntei com a voz fraca.
Os olhos de Clarkson estavam fixos no médico à espera da confirmação. Imaginei tratar-se de uma informação vital para ele.
— Esse seria o melhor dos casos. Se você um dia for capaz de conceber.
— Com licença.
Pulei da cama, disparei rumo ao banheiro próximo à entrada da ala hospitalar, me enfiei em uma das cabines e vomitei tudo o que havia dentro do meu corpo.

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