segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 8

— Tem certeza? — perguntei.
— Absoluta — o mensageiro disse.
— Nem uma lágrima sequer?
O mensageiro abriu um sorriso malicioso.
— Nenhuma.


Detive-me diante da porta do quarto da America, sem saber ao certo porque meu coração batia tão rápido. Ela não sentia nada por mim, e deixara isso bem claro. E esse tinha sido o principal motivo para eu escolhê-la primeiro. Seria um encontro fácil.
Esperava que uma das criadas atendesse a porta, mas quando se abriu, me deparei com a própria America, que lutava para esconder o sorriso sarcástico.
— Em nome das aparências, você poderia segurar meu braço? — pedi, oferecendo-o a ela. Ela soltou um suspiro, aceitou, e ambos seguimos pelo corredor.
Pensei que ela começaria a reclamar, a dizer que deveria ter ganhado, mas permaneceu calada. Estaria chateada? Será que não queria mesmo passear comigo?
— Sinto muito que ela não tenha chorado — consolei-a.
— Não, não sente — ela provocou.
Isso me deu a certeza de que estava tudo bem. Talvez ela estivesse distraída com alguma coisa, mas as piadas pareciam ser a nossa língua. Se continuássemos por esse caminho, ficaríamos bem.
— Nunca tinha apostado antes. Foi bom ganhar.
— Sorte de principiante — ela rebateu.
— Talvez. Da próxima podemos apostar se ela ri.
Ela desviou o olhar para o teto, pensativa, e eu podia imaginar por onde sua mente andava.
— Como é a sua família?
Ela estranhou.
— O que você quer dizer?
— Só isso mesmo. Sua família deve ser bem diferente da minha.
America tinha vários irmãos, sua casa era pequena... as pessoas choravam com doces. Eu era incapaz de imaginar como era a vida em sua família.
— Eu diria que sim. Para começo de conversa, ninguém em casa usa coroa no café da manhã.
Sua risada era como música, tão adequada a uma Cinco.
— Vocês usam coroa apenas no jantar?
— Mas é claro.
Não consegui segurar o riso. Gostava do seu senso de humor. Parecia um pouco com o meu quando ela o deixava transparecer. Achava curiosa a possibilidade de duas pessoas que cresceram em mundos completamente diferentes serem tão parecidas.
— Bem, sou a filha do meio de cinco irmãos.
— Cinco!
Nossa, devo ter falado muito alto.
— Sim, cinco — ela confirmou, sem entender minha surpresa. — A maioria das famílias por aí tem montes de filhos. Eu teria vários se pudesse.
— Mesmo?
Outra semelhança, desta vez bem pessoal.
Seu “sim” encabulado revelou que aquilo também era algo íntimo para ela. Talvez não devesse, mas foi constrangedor conversar sobre construir uma família com America – uma garota com quem teoricamente eu deveria ter uma chance, mas não tinha.
— Não importa — ela continuou. — Minha irmã mais velha, Kenna, é casada com um Quatro. Ela trabalha numa fábrica agora. Minha mãe quer que eu me case ao menos com um Quatro...
Qual o problema com um Um?
—... mas eu não quero ser forçada a parar de cantar. Amo a música.
Ah, faz sentido. O cara que ficou para trás deve ser um incrível Cinco, então.
— Mas agora sou uma Três — ela prosseguiu com a voz triste. — É estranho... Acho que vou tentar permanecer na música, se puder. Depois vem Kota. Ele é artista. Não o temos visto muito. Ele foi se despedir de mim, mas é só.
Havia algo em seu tom de voz que indicava dor ou arrependimento, mas ela foi em frente antes que eu pudesse perguntar.
— Depois eu — ela disse ao nos aproximarmos da escada.
Fiquei radiante.
— America Singer, minha melhor amiga.
Ela fez uma careta brincalhona e seus olhos azuis brilharam sob a luz.
— Isso mesmo.
Senti um estranho conforto ao ouvir essas palavras.
— Depois de mim vem May. É a que me traiu e não chorou. Para ser sincera, fui roubada. Não acredito que ela não tenha chorado! May é uma artista... e eu a amo muito. Por fim, vem Gerad, meu irmão caçula de sete anos. Ele ainda não sabe direito se vai para música ou para outras artes. Na verdade, ele gosta de jogar bola e estudar insetos, o que é bom. Só que não vai conseguir ganhar dinheiro com isso. Tentamos fazer com que ele experimente outras coisas. Bem, já falei de todos.
— E os seus pais? — perguntei, tentando formar a imagem completa dela.
— E os seus pais? — ela disparou.
— Você conhece os meus pais.
— Não. Conheço a imagem pública deles. Como eles são de verdade?
Ela assumiu um ar de súplica, puxando meu braço. Achei graça daquele gesto infantil.
Mas divagava. O que poderia contar a ela sobre os meus pais?
Receio que minha mãe seja doente. Ela sofre enxaquecas e fadiga. Não sei se tem a ver com sua criação ou com algo que aconteceu depois. Tenho certeza que deveria ter pelo menos mais um irmão, e talvez a doença esteja relacionada a isso. Meu pai... Às vezes, meu pai...
Adentramos o jardim, onde as câmeras nos esperavam. Me senti desconfortável instantaneamente. Queria privacidade em momentos como aquele. Não sabia o quanto America e eu revelaríamos sobre nossas vidas, mas tinha certeza que não chegaríamos a lugar nenhum se tivéssemos plateia. Depois de sinalizar para que a equipe nos deixasse, olhei para America e percebi que ela estava distante outra vez.
— Você está bem? Parece tensa.
Ela deu de ombros.
— Você fica confuso com choro de mulher, e eu com caminhadas ao lado de príncipes.
Abri um sorriso.
— Por que deixo você confusa?
— Seu caráter. Suas intenções. Não sei direito o que esperar dessa nossa voltinha.
Será que eu era tão misterioso assim? Talvez eu fosse. Era um mestre de sorrisos forçados e das meias verdades. Mas certamente não queria passar essa impressão.
Fiz uma pausa e a encarei.
— Ah. Acho que você já percebeu que não sou um homem que se esconde. Vou dizer exatamente o que eu quero de você.
Quero conhecer alguém. Conhecer alguém de verdade. E quero que esse alguém seja você, ainda que você vá embora.
Dei um passo em sua direção e fui subitamente interrompido por uma dor lancinante. Aos gritos, me curvei e recuei. Aqueles passos foram quase insuportáveis, mas não havia chance de me jogar no chão, encolhido, embora fosse o meu instinto. Senti vontade de vomitar, e também lutei contra ela. Príncipes não vomitam, nem rolam na grama.
— Porque fez isso?
Aquela era minha voz? Mesmo? Eu soava como uma garotinha de cinco anos.
— Se encostar um dedo em mim, vou fazer pior!
— O quê?
— Se encostar um dedo em mim...
— Não, sua louca. Eu ouvi da primeira vez. Mas o que quer dizer com isso?
Ela permaneceu imóvel, os olhos mais uma vez arregalados, a mão cobrindo a boca como se ela tivesse cometido um terrível engano. Me virei na direção dos passos dos soldados e os dispensei com um braço – enquanto tentava me apoiar desesperadamente no outro.
O que eu tinha feito? O que ela pensou que eu estava...?
Me recompus para ao menos tentar descobrir.
— O que achou que eu queria? — perguntei.
Ela baixou o olhar.
— America, o que você achou que eu queria? — indaguei.
Tudo em sua atitude dava a entender o que ela pensava. Nunca tinha sido tão insultado.
— Em público? Você pensou... por Deus! Eu sou um cavalheiro!
Apesar de sentir uma dor excruciante, endireitei o corpo e me afastei. Então uma coisa passou pela minha cabeça.
— Por que se ofereceu para me ajudar se me considera tão baixo?
Ela não respondeu.
— Você jantará em seu quarto hoje. Cuido disso amanhã de manhã.
Caminhei o mais depressa possível, ansioso para ficar longe dela e superar o ódio e a humilhação. Bati a porta do meu quarto, furioso.
Um segundo depois, meu mordomo apareceu.
— Ouvi o senhor entrar, Alteza. Deseja algo antes de se deitar?
— Gelo — resmunguei.
Ele se apressou para cumprir o meu pedido, e eu caí na cama, consumido pelo ódio. Cobri os olhos na tentativa de processar tudo o que tinha acontecido. Não conseguia acreditar que poucos minutos antes estivera prestes a me abrir com ela, a compartilhar meus sentimentos.
Era para ter sido meu primeiro encontro fácil!
Enquanto bufava, ouvi meu mordomo deixar uma bandeja no criado-mudo e logo se retirar.
Quem ela pensava que era? Uma Cinco agredindo seu futuro rei... Se fosse do meu feitio, poderia fazer com que fosse punida severamente.
Ela voltaria para casa, sem dúvida. Não havia chance de mantê-la depois daquilo.
Analisei o ocorrido por muito tempo, pensando no que eu deveria ter feito ou dito na hora. Cada vez que relembrava, ficava enfurecido. Que tipo de garota fazia uma coisa dessas? O que a levava a pensar que tinha o direito de atacar o príncipe?
Fiquei remoendo aquilo sem parar, mas lá pela centésima vez em que pensava no assunto, a irritação se transformou em uma espécie de admiração.
America não temia nada?
Não era uma teoria que eu pretendia testar, mas me perguntei: quantas das outras garotas, se postas numa situação em que pensassem que eu queria me aproveitar delas, cederiam? Só para poder contar vantagem depois, ou por medo do que eu faria caso não cedessem?
America me interrompeu antes mesmo que tal situação se apresentasse, sem se preocupar nem um pouco com o que eu diria. Apesar de ter interpretado minhas intenções completamente errado, ela soube se defender. E eu admirava isso, de verdade. Era uma qualidade que eu mesmo desejava ter. Talvez se eu ficasse próximo dela o suficiente, um pouco disso passaria para mim.
Droga. Tinha que deixá-la ficar.

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