terça-feira, 2 de agosto de 2016

Capítulo 5

Nunca tinha feito um exame médico antes. Imaginei que, se me tornasse princesa, isso provavelmente se tornaria uma parte constante da minha vida, o que me horrorizava.
Doutor Mission era gentil e paciente, mas mesmo assim não me sentia muito à vontade de deixar um estranho me ver sem roupa. Ele colheu sangue, fez inúmeros raios X e examinou meu corpo inteiro à procura de algum detalhe que pudesse ter escapado.
Saí de lá exausta. Claro, eu não tinha dormido bem, o que não ajudou. O príncipe Clarkson me deixara à porta do quarto com um beijo na mão. E entre a emoção daquele gesto e a preocupação com seus sentimentos, levei uma eternidade para pegar no sono.
Adentrei o Salão das Mulheres meio receosa de olhar nos olhos da rainha Abby. Preocupava-me a possibilidade de ela ter alguma marca visível no corpo. Claro: podia ter sido ela a bater no rei. E eu não tinha certeza se queria saber.
Mas tinha certeza de que não queria que ninguém mais soubesse.
A rainha não estava, então fui sentar ao lado de Madeline e Bianca.
— Ei, Amberly. Onde você esteve de manhã? — Bianca perguntou.
— Doente de novo? — emendou Madeline.
— Sim, mas estou bem melhor agora. — Eu não sabia se o exame deveria ser segredo ou não, mas julguei que era melhor manter a discrição.
— Ótimo, porque você perdeu o que aconteceu! — Madeline sussurrou inclinando-se na minha direção. — Há rumores de que Tia dormiu com Clarkson essa noite.
Meu coração parou.
— O quê?
— Olhe para ela — disse Bianca, lançando um olhar por cima do ombro na direção de Tia, que estava sentada com Pesha e Marcy ao lado da janela. — Veja como está convencida.
— É contra as regras — eu disse. — É contra a lei.
— Nada a ver — cochichou Bianca. — Você o rejeitaria?
Pensei no modo como ele me olhara na noite anterior, o modo como seus dedos deslizavam na superfície da mesa. Bianca tinha razão: eu não teria dito não.
— Mas é verdade? Ou só boato? — perguntei.
Afinal, ele passara parte da noite comigo. Não toda, porém. Havia bastante tempo entre a nossa despedida e o café da manhã.
— Ela tem se mantido bem reservada quanto a isso — retomou Madeline.
— Bom, não é mesmo da nossa conta — concluí, para em seguida pegar as cartas de baralho que as duas tinham espalhado na mesa e começar a embaralhar.
Bianca jogou a cabeça para trás e soltou um suspiro alto, ao passo que Madeline pôs a mão sobre a minha e disse:
— É da nossa conta sim. Muda o jogo inteiro.
— Isto não é um jogo — respondi. — Não para mim.
Madeline estava a ponto de dizer mais, mas as portas se escancararam. A rainha Abby surgiu na entrada, parecendo furiosa.
Se havia algum machucado em seu corpo, ela tinha escondido muito bem.
— Quem de vocês é Tia? — quis saber.
O salão inteiro olhou em direção à janela onde Tia estava sentada, imóvel e pálida como uma folha de papel.
— E então? — insistiu a rainha.
Tia levantou a mão devagar, e a rainha marchou até ela com sangue nos olhos. Eu esperava que, fosse qual fosse a bronca que Tia estava prestes a levar, a rainha a retiraria do salão antes. Infelizmente, não foi o caso.
— Você dormiu com meu filho? — ela perguntou, sem qualquer preocupação em ser discreta.
— Majestade, é só um boato — sua voz mal passava de um ruído, mas o salão se calou de tal forma que eu podia até ouvir a respiração de Madeline ao meu lado.
— Que você não fez nada para desmentir!
Tia gaguejou. Começou cinco frases diferentes antes de escolher uma:
— Os boatos morrem quando os deixamos correr. Negar veementemente sempre implica culpa.
— E você nega ou não?
Encurralada.
— Não dormi com ele, minha rainha.
Não importava se era verdade ou mentira: o destino de Tia estava selado antes mesmo de ela abrir a boca.
A rainha Abby agarrou Tia pelo cabelo e começou a arrastá-la em direção à porta.
— Você vai embora já!
Entre gritos de dor, Tia protestou:
— Mas só o príncipe Clarkson pode fazer isso, Majestade. Está nas regras.
— Não se comportar como uma vadia também está nas regras! — rebateu a rainha.
Tia mal conseguia se manter de pé, de modo que a rainha literalmente a levantava pelo cabelo. Aos tropeços, a garota tentava acompanhar o ritmo da rainha Abby, que com um empurrão a atirou no chão do corredor.
— FORA DAQUI!
A monarca bateu a porta e logo se virou para o resto de nós. Correu os olhos afiados pelos nossos rostos por um bom tempo, para garantir que nos intimidássemos com seu poder.
— Vou deixar uma coisa bem clara — ela começou calmamente, flanando devagar por entre cadeiras e sofás ocupados pelas garotas, com um ar ao mesmo tempo glorioso e terrível. — Se alguma pirralha aqui pensa que pode entrar na minha casa e tomar minha coroa, está muito enganada. — A rainha agora estava parada na frente de um grupinho perto da parede. — E se vocês acham que podem agir como lixo e ainda assim levar o trono, não perdem por esperar.
Então, enterrando o dedo no rosto de Piper, concluiu:
— Não vou tolerar nada disso!
A força do gesto foi suficiente para jogar a cabeça de Piper para trás, mas ela não reagiu à dor até a rainha Abby se afastar.
— Sou a rainha. E sou amada. Se vocês querem casar com meu filho e viver na minha casa, vão se comportar como eu mandar. Serão obedientes. Refinadas. E silenciosas.
Ela se enfiou por entre as mesas e parou diante de mim, Bianca e Madeline.
— De agora em diante, vocês só precisam aparecer, sentar e sorrir.
Nossos olhares se encontraram quando ela terminou de falar e, tolamente, achei que fosse uma ordem. Então sorri. A rainha não ficou satisfeita. Pelo contrário, deu um passo para trás e arrancou o sorriso de meu rosto com um tapa.
Soltei um gemido e caí na mesa. Não ousei me mexer.
— Vocês têm dez minutos para sair daqui. As próximas refeições do dia serão servidas no quarto. Não quero ouvir um pio de nenhuma de vocês.
Ouvi a porta se fechar, mas ainda precisei ter certeza:
— Ela já foi?
— Sim. Você está bem? — Madeline perguntou tomando o assento à minha frente.
— Parece que meu rosto explodiu. — Levantei a cabeça, mas o inchaço fazia meu corpo todo latejar.
— Minha nossa! — gritou Bianca. — Dá para ver a marca da mão dela.
— Piper? — chamei. — Onde está Piper?
— Aqui — ela respondeu entre lágrimas, já caminhando na minha direção.
— Tudo bem com seu rosto? — perguntei.
— Dói um pouco.
Ela passou a mão na região que a rainha tinha machucado e pude ver a marca da unha.
— Ficou uma marquinha, mas um pouco de maquiagem deve cobrir.
Ela caiu em meus braços e ficamos abraçadas.
— O que deu nela? — perguntou Nova. Suas palavras expressavam o pensamento de todas nós.
— Talvez ela queira proteger demais a família — Sky e sugeriu.
Cordaye bufou.
— Até parece que não vemos o quanto ela bebe. Dava para sentir o cheiro.
— Ela sempre é tão simpática na TV… — Kelsa cruzou os braços, confusa com toda a situação.
— Ouçam — falei — uma de nós vai descobrir como é ser rainha. Mesmo de fora, a pressão parece insuportável. — Fiz uma pausa para esfregar a bochecha, que queimava. — Por ora, acho que todas deveríamos evitar a rainha o máximo possível. E não mencionar isso a Clarkson. Falar mal da mãe dele, independente do que ela tenha feito, não será nada bom para nós.
— E você acha que devemos simplesmente ignorar o que aconteceu? — Neema perguntou, ultrajada.
Dei de ombros.
— Não posso obrigá-las, mas é o que farei.
Puxei Piper para perto novamente. Todas permanecemos lá, em silêncio. A minha esperança no começo da competição era formar laços com aquelas garotas por causa de nossas músicas favoritas ou dos truques de maquiagem que uma ensinaria à outra.
Jamais imaginara que seria um medo em comum a nos unir como irmãs.

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