Pedi a Martha que encontrasse uma faixa de cabelo enfeitada com pedras e deixei os fios completamente soltos. Nunca tinha ficado tão empolgada para o café da manhã.
Acreditava estar absolutamente linda e mal podia esperar para ver se Clarkson pensaria o mesmo.
Se tivesse sido esperta, teria chegado um pouco antes. Mas acabei entrando lentamente ao lado de várias outras garotas, o que me fez perder qualquer chance de atrair a atenção do príncipe. De segundos em segundos, eu lançava um olhar para a mesa principal, mas Clarkson estava concentrado em cortar devidamente sua refeição de waffles e presunto, de vez em quando passando os olhos por uns papéis ao seu lado.
O pai praticamente só tomava café; levava a colher à boca apenas nas pausas que fazia durante a leitura de um documento. Considerei que ambos estudavam o mesmo assunto, e que se tinham começado tão cedo é porque teriam um dia bastaste atarefado. Não havia qualquer sinal da rainha. Embora a palavra “ressaca” não tenha sido dita em voz alta, quase dava para ouvi-la no pensamento de todos.
Terminado o café da manhã, Clarkson saiu com o rei para fazer o que quer que fizessem para o país funcionar.
Soltei um suspiro. Talvez à noite.
O Salão das Mulheres estava silencioso. Já tínhamos esgotado todas as conversas do tipo “vamos nos conhecer” e estávamos acostumadas a passar os dias juntas. Sentei ao lado de Madeline e Bianca, como quase sempre fazia. Bianca viera de uma das províncias vizinhas de Hondurágua, e nos conhecemos no avião. O quarto de Madeline era ao lado do meu, e certa vez uma de suas criadas bateu à minha porta para pedir linha. Mais ou menos meia hora depois, Madeline apareceu para agradecer, e desde então ficamos amigas.
Desde o começo, o Salão das Mulheres dividiu-se em grupinhos. Estávamos acostumadas a ser separadas em grupos na vida cotidiana – as Três para um lado, as Cinco para o outro – então parecia natural isso se repetir no palácio. E embora não nos dividíssemos exclusivamente por castas, não podia deixar de desejar que não houvesse divisão nenhuma. Por acaso não nos tornáramos iguais ao chegar ali, pelo menos durante a competição? Não estávamos passando pela mesmíssima coisa?
Se bem que, naquele momento, parecia que estávamos passando por um monte de nada. Bem que eu queria que acontecesse alguma coisa para que tivéssemos assunto.
— Receberam notícias de casa? — perguntei, na tentativa de começar uma conversa.
— Minha mãe escreveu ontem — respondeu Bianca, levantando a cabeça. — Disse que Hendly já está noiva. Você acredita? Ela saiu faz o quê? Uma semana?
Madeline entrou na conversa:
— Qual a casta dele? Ela vai subir?
— Ah, com certeza! — empolgou-se Bianca. — Dois! Tipo, isso dá esperança. Eu era Três antes de vir para cá, mas a ideia de casar com um ator e não com um médico velho e chato parece divertida.
Madeline riu e concordou com a cabeça. Já eu não estava tão certa:
— Ela o conhecia antes? Antes de vir para a Seleção, quero dizer?
Bianca inclinou a cabeça para o lado, como se a minha pergunta fosse ridícula.
— Bem difícil. Ela era Cinco; ele, Dois.
— Bom, ela contou que vinha de uma família de músicos. Talvez tenham tocado para ele alguma vez — conjecturou Madeline.
— É uma boa possibilidade — acrescentou Bianca. — Então talvez não fossem completos estranhos.
— Hum… — murmurei.
— Dor de cotovelo? — perguntou Bianca.
Achei graça.
— Não. Se Hendly está feliz, também estou. Só é meio estranho casar com alguém que você nem conhece.
Houve uma pausa antes de Madeline dizer:
— Não é mais ou menos o que a gente está fazendo?
— Não! — exclamei. — O príncipe não é um estranho.
— Mesmo? — desafiou Madeline. — Então, por favor, conte tudo o que você sabe sobre ele, porque sinto que desconheço quase tudo.
— Na verdade… eu também — admitiu Bianca.
Respirei fundo para começar uma longa lista de fatos sobre Clarkson… Só que não havia muito o que falar.
— Não quero dizer que sei cada um dos segredos dele, mas o príncipe também não é um moleque qualquer com quem a gente tromba na rua. Crescemos com ele, ouvimos sua voz no Jornal Oficial, vimos seu rosto centenas de vezes. A gente talvez não conheça todos os detalhes, mas tenho uma impressão bem clara dele. Vocês não?
Madeline sorriu.
— Acho que você tem razão. Não é como se a gente tivesse entrado aqui sem ao menos saber o nome dele.
— Exatamente.
A criada foi tão discreta que só a notei quando ela já estava ao pé do meu ouvido, sussurrando:
— Sua presença é requerida por um momento, senhorita.
Encarei-a, confusa. Não havia feito nada de errado. Virei para as garotas e dei de ombros antes de levantar e segui-la porta afora.
Ao chegarmos no corredor, ela apenas fez um gesto para que eu me virasse. Foi então que deparei com o príncipe Clarkson, de pé ali perto, com aquele quase sorriso nos lábios e algo na mão.
— Fui postar um pacote na sala de correio, e o chefe dos carteiros estava com esta carta para você — ele disse enquanto me estendia um envelope preso entre dois dedos. — Pensei que talvez quisesse receber imediatamente.
Avancei o mais rápido possível sem perder a compostura de uma dama e fui pegar o envelope. O sorriso do príncipe assumiu um ar malicioso quando ele repentinamente ergueu o braço.
Comecei a rir, mas sem deixar de tentar apanhar a carta desesperadamente.
— Não é justo!
— Vamos, você consegue.
Eu conseguia pular bem, mas não com sapatos de salto; e mesmo com eles era um pouco mais baixa que Clarkson. Mas não me importava fracassar, porque entre uma tentativa frustrada e outra, senti um braço envolver minha cintura.
Por fim, ele entregou a carta. Como eu suspeitava, era de Adele. Tantos momentos felizes se acumulavam naquele dia.
— Você cortou o cabelo.
Desviei os olhos da carta.
— Sim — confirmei, e então peguei uma mecha e joguei por sobre o ombro. — Gostou?
Havia algo em seus olhos. Não era malícia, também não era algo dissimulado.
— Gostei. Muito.
Com essas palavras, ele deu meia-volta e saiu pelo corredor, sem olhar para trás.
Era verdade: eu fazia uma ideia de quem ele era. Ainda assim, à medida que acompanhava sua rotina, me dava conta de que havia muito mais nele do que eu vira no Jornal Oficial. Mas essa descoberta não me intimidava.
Pelo contrário, se tratava de um mistério que eu estava empolgada para desvendar.
Sorrindo, rasguei o envelope e comecei a ler a carta ali mesmo, no corredor, perto de uma janela para aproveitar a luz.
Doce, doce Amberly,
Sinto tanta saudade que até dói. Dói quase tanto quanto pensar nas roupas lindas que você veste e na comida que experimenta. Não consigo nem imaginar os aromas! Quem me dera conseguir.
Mamãe chora praticamente toda vez que vê você na TV. Você parece uma Um! Se eu não soubesse a casta de todas as garotas, jamais imaginaria que você não é da família real. Não é engraçado? Se alguém quisesse, poderia simplesmente fingir que esses números não existem. Mas, parando para pensar, eles não existem para você, Pequena Senhorita Três.
A propósito, gostaria que existisse algum Dois há muito perdido na família para ajudá-la, mas você já deve imaginar que não. Pesquisei: somos Quatro desde sempre, e é só.
Os únicos acréscimos dignos de nota não são bons. Nem queria te contar isso, e espero que ninguém ponha os olhos nesta carta antes de você, mas a prima Romina está grávida.
Parece que se apaixonou por aquele Seis que dirige os caminhões de entrega para os Rake. Vão se casar no próximo final de semana, o que fez todos respirarem aliviados. O pai (por que não consigo lembrar o nome dele? Argh!) se recusa a ter um filho rebaixado a Oito, e isso já é bem mais do que alguns homens mais velhos que ele fariam. Então é uma pena você perder o casamento, mas estamos felizes por Romina.
Em todo caso, essa é a família que você tem agora. Um bando de fazendeiros e um punhado de foras da lei. Apenas seja a garota bela e amável que sabemos que é, e o príncipe sem dúvida irá se apaixonar por você apesar da casta.
Amamos você. Escreva de novo. Sinto falta da sua voz. Você cria uma paz ao seu redor, e acho que só notei quando você já não estava mais aqui para fazer isso.
Adeus por ora, princesa Amberly. Por favor, lembre-se de nós quando conquistar a coroa!


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