terça-feira, 2 de agosto de 2016

Entrevista com Kiera Cass

Qual era o seu livro favorito na juventude?
Por incrível que pareça, acho que não tinha favoritos. Lembro que meus pais me deram aqueles livros da Disney que vinham com uma fita cassete com a história lida em voz alta, então conseguia acompanhar o texto antes mesmo de aprender a ler de verdade. Também lembro que aprendi a ler antes da maioria dos meus amigos, e lia para as outras crianças da creche.
Isso é muito engraçado. Tinha me esquecido de quase tudo isso até agora. Mas acho que gosto de livros desde sempre!



Quando você percebeu que queria ser escritora?
Eu meio que trombei com a carreira. Estava passando por uma situação que não sabia muito bem como enfrentar. Um dia decidi entregá-la a uma personagem para ver o que ela faria. Para mim, ler é uma ótima maneira de lidar com os meus problemas, então a ideia de escrever uma historia pareceu boa. No fim das contas, ela me ajudou muito a esclarecer as coisas. Nunca terminei esse projeto porque várias personagens começaram a surgir na minha cabeça, cada uma com sua própria história pra contar. America acho que foi a terceira da fila, mas uma das primeiras a exigir que eu escrevesse sua história.



Qual foi sua inspiração para escrever A Seleção?
A Seleção nasceu a partir dos “e se?” de outras histórias – basicamente a de Ester (da Bíblia) e a de Cinderela. Comecei a pensar no que aconteceria se Ester – antes de ser enviada para o palácio para competir pelo rei – gostasse de um menino qualquer. Na história original ela vence, o que é incrível. Só que mesmo se perdesse, nunca mais poderia voltar para casa. Será que ela amava alguém e teria que deixar esse amor morrer? Sempre tive curiosidade sobre o que se passava em seu coração. E Cinderela nunca pediu um príncipe; pediu uma noite fora e um vestido. Partimos do pressuposto de que foi feliz para sempre porque arranjou um homem, mas e se não fosse o caso? E se ser princesa fosse mais do que ela estava preparada para lidar?
Essas duas ideias se misturam na minha cabeça e tive a certeza de que queria escrever a história de uma garota de origem humilde que chama atenção de um príncipe, mas que não o quer porque esta apaixonada por outro. E eu sabia que ela passaria por alguma circunstância que lhe mostraria um mundo maior do que aquele que estava preparada para ver. E essa circunstância acabou sendo a Seleção.



Qual foi a melhor reação de um fã à serie até agora?
Na vida real, uma leitora compareceu a uma sessão de autógrafos com seus exemplares de A Seleção A Elite e cada um continha umas cinquenta fitinhas adesivas marcando as páginas. Nesse mesmo dia, uma menina chegou com uma coca zero e salgadinhos Wheat Thins (meu lanche preferido quando estou escrevendo) e tentou me subornar para garantir que America terminasse com Aspen. Muito fofa!
Na internet, fiquei chocada com o Tumblr! as pessoas fizeram desenhos incríveis, criaram RPGs, escreveram fanfics e inventaram teorias maravilhosas para o final da série. Isso tudo é muito legal, porque eu trabalho sozinha no meu escritório, então ver o público tão empolgado quanto eu NUNCA cansa. É tão divertido!



Como você escolhe os nomes das personagens?
Quase todos são nomes descartados para meus filhos. Amberly, Kamber, Tuesday, Emmica e mesmo America foram todos nomes que meu marido não quis. Por isso dei esses nomes às minhas filhas fictícias, onde estariam a salvo.
De vez em quando, saio à caça de nomes. Aspen surgiu quando buscava por um nome que soasse ao mesmo tempo forte e romântico. Fato: quase mudei o nome para Apsen porque toda hora escrevia errado. E, às vezes, pego nomes de amigos e leitores maravilhosos emprestados. Pelo menos cinco nomes em toda a trilogia vieram desses primeiros fãs.



Qual parte da série foi mais difícil de escrever?
Em termos profissionais, o segundo livro inteiro foi complicado. As pessoas me disseram que escrever sequências era difícil, mas pra mim estava tudo indo bem. Gostava do que estava acontecendo... mas acabei jogando metade do livro fora. Duas vezes. Ainda há dias em que procuro por passagens da história que nunca chegaram a sair do papel.
Em termos emocionais, os últimos capítulos de A Escolha foram muito difíceis para mim em vários sentidos.



Qual foi a primeira cena de A Seleção que você escreveu?
A primeiríssima linha do livro. Para mim, estava bem claro que a garota tinha acabado de receber uma carta capaz de mudar sua vida, mas não queria fazer nada a respeito. O primeiro livro foi escrito de maneira completamente cronológica, como se eu perguntasse à America “E aí? O que aconteceu depois?” sempre que chegava ao fim do que me parecia um capítulo. A Elite foi escrito em cenas que depois liguei uma às outras; em A Escolha comecei pelo fim e trabalhei em direção ao começo.



Descreva America em seis palavras.
Início de A Seleção: Não me force a fazer isso.
Fim de A Elite: Ei, então eu posso fazer isso?



Descreva Aspen em seis palavras.
Início de A Seleção: Eu nunca vou desistir de você.
Fim de A Elite: Por favor, não desista de mim.



Descreva Maxon em seis palavras.
Início de A Seleção: Espero que elas gostem de mim.
Fim de A Elite: E agora? De quem eu gosto?



Com que personagem da série você mais se identifica?
May. Demorei demais para perceber, mas nós duas seríamos melhores amigas para sempre. Ela tem quase quinze anos, e o que eu mais queria era folhear revistas e ouvir música pop com ela. Não sei bem o que isso revela de mim mesma, já que passei dos trinta, mas não ligo: May é das minhas.



Que personagem da série mais surpreendeu você?
Sabia o segredo da maioria das personagens desde o começo da história. Então escrevi o primeiro livro de olho no último. Nada me surpreendeu muito. Mas posso dizer que não esperava que a Kriss me impusesse tanto. Para mim, ela estava lá para fazer figuração, mas quando tudo começou a dar errado entre Maxon e America, ela abriu caminho até a linha de frente na minha cabeça e exigiu sua chance.



Que acontecimento mais surpreendeu você na série?
Sabia que Marlee tinha um segredo desde o começo, mas demorou um tempo até eu descobrir o que era e que ele seria revelado. Quando isso ficou claro, precisei lidar com o fato de que ela e Carter seriam punidos. Tive que pesquisar sobre açoitamentos, as varas usadas, os diferentes tipos de golpes, assim como as feridas e as cicatrizes que a tortura provocaria.
Foi difícil lidar com isso quando me dei conta de que aconteceria com Marlee. Tinha que fazer pausas enquanto escrevia, e chorei em alguns momentos. Não sei se o acontecimento em si me surpreendeu tanto ou se minha maior surpresa foi tomar consciência do quão apegada eu estava a essas pessoinhas dentro da minha cabeça. Sofro de verdade com elas.



Alguma personagem é baseada em alguém que você conhece?
Sim e não. Com certeza uso características das pessoas, ou ao menos sentimentos que associo a seus nomes. Conheci uma Celeste muito rude na minha infância, então quando aquela garota má chegou ao aeroporto, o nome veio de imediato. E peguei emprestados vários nomes de conhecidos, como o do meu irmão mais novo, Gerad. (Quero deixar registrado, porém, que ele é muito musical e daria um ótimo Cinco).
Provavelmente a maior influência veio do meu marido, Callaway. Já perguntaram a ele várias vezes se Maxon era baseado nele, e a verdade é que mais ou menos... mas não exatamente. Existe um pouco de Callaway em cada garoto que escrevo. Como poderia não existir? Ele é meu exemplo de amor, o cara por quem me apaixonei. As características que considero atraentes nele tendem a aparecer no papel. A paixão e a devoção de Aspen? Callaway. A nerdice e a doçura de Maxon? Callaway. Até o jeito de Carter olhar para as pessoas tem um toque de Callaway. Não consigo evitar!



Você sabia desde o começo como a história de America acabaria?
Mais ou menos. Em 2009, publiquei um livro independente chamado The Siren, que contava a história de Kahlen, uma garota que vivia temporariamente como serva do oceano. Kahlen estava um pouco ressentida com sua situação e queria que todos conhecessem sua história. Se eu lhe perguntasse alguma coisa, ela respondia sem hesitar.
Quando America deu as caras e me disse que sua história deveria ser a próxima a ser contada, imaginei que ela agiria exatamente da mesma maneira: ansiosa para me contar tudo. Mas ela é diferente, e várias vezes precisei pôr palavras em sua boca. Quando terminei o primeiro livro, percebi duas coisas: 1) tinha entendido tudo errado sobre ela e precisaria reescrever o livro; 2) a pessoas que eu tinha escolhido para ficar com ela no final não era quem de fato ela escolheria.
Eu tinha tomado as decisões a partir da minha percepção dela, em vez de ser paciente e descobrir o que ela queria. Quando finalmente comecei a ouvi-la, ficou evidente que eu estava errada. Mal posso esperar o lançamento do último livro para poder contar todos os desdobramentos do final original. Era superdramático! Quer dizer, totalmente errado, mas incrivelmente dramático.



Se você vivesse em Illéa, iria querer participar da Seleção?
Depende. Tenho um Aspen da minha vida? O príncipe a ser conquistado é como Maxon? Acho que se fosse solteira, talvez botasse meu nome para concorrer, mas só se o príncipe em questão parecesse simpático. Entendo que ele está à procura do amor, mas eu também! Contudo, se já houvesse um cara na minha vida... acho que não conseguiria me inscrever.
Em todo caso, eu daria uma péssima princesa.



Onde foi o primeiro beijo de America e Aspen?
Na casa da árvore.
Aspen, como era mais velho, já tinha beijado algumas garotas da cidade. Todas as Seis tinham esperança de ficar com ele, porque além de absolutamente lindo, Aspen tinha aquele jeito de “eu podia ser mau, mas escolhi não ser” que as atraía. Nenhum desses beijos chegou a ter importância, e quando America acendeu a faísca em seu coração, Aspen estava decidido a conquistá-la.
America, prestes a completar quinze anos, nunca tinha sentido nada por ninguém, e não sabia direito o que pensar sobre aquele garoto que conhecia desde criança e sempre evitara, mas agora preenchia cada espaço em sua cabeça e em seu coração.
Depois que Aspen entregou aquele cartão de aniversário para America, durante duas semanas os dois se encontravam na casa da árvore quase todos os dias. Lá, eles conversavam, contavam piadas e trocavam aqueles minúsculos toques que significavam o mundo quando você está descobrindo que alguém gosta de você. No final da segunda semana, Aspen já não aguentava mais.
America estava encostada em Aspen, com a cabeça apoiada em seu ombro. No impulso, Aspen a segurou pelas bochechas e a beijou. Os olhos de America se arregalaram com o choque do primeiro beijo, mas Aspen a manteve firme. Em poucos segundos ela jogou os braços em volta dele e pulou para o seu colo. Não fizeram quase nada além de se beijar naquela noite.



Diga uma coisa sobre America que não descobriríamos nos livros.
Provavelmente há várias coisinhas que os leitores não sabem, mas eu não me dou conta de que não sabem, porque eu sei – se é que isso faz sentido. Quando surge um novo detalhe sobre Maxon ou Aspen, fico tão chocada quanto qualquer outra pessoa, porque enxergo a história pelos olhos de America, não pelos deles. Mas não me surpreenderia nem um pouco se America contasse que é metade judia e as pessoas dissessem: “É mesmo?”. É que faz anos que olho para a árvore genealógica dela, então para mim é óbvio.
Tenho a sensação de que esta resposta ficou meio capenga, mas é verdade!

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