Embora ele se esforçasse para não ser um daqueles meninos que gastavam o tempo olhando pelo buraco das fechaduras e escutando conversas pelas chaminés, certa tarde Bruno passou pelo escritório do pai, num momento em que a mãe e o pai estavam lá dentro, tendo uma das suas conversas. Ele não queria ser enxerido, mas os dois estavam falando em voz alta e o menino não pôde deixar de ouvir o que diziam.
— É horrível — dizia a mãe. — Simplesmente horrível. Eu não posso mais aguentar.
— Não temos escolha — disse o pai. — Esta é a tarefa que nos foi designada e…
— Não, esta é a tarefa que lhe foi designada — disse a mãe. — Designada a você, não a nós. Fique aqui se quiser.
— E o que as pessoas vão pensar — perguntou o pai, — se eu permitir que você e as crianças voltem a Berlim sem mim? Farão perguntas quanto ao meu comprometimento com o trabalho feito aqui.
— Trabalho? — gritou a mãe — Chama isto de trabalho?
Bruno não ouviu muito mais porque as vozes estavam se aproximando da porta e sempre havia a chance de que a mãe saísse do escritório de uma vez em busca de um trago do xerez medicinal, e então ele correu escada acima. Ainda assim, ouviu o bastante para saber que havia a chance de eles voltarem a Berlim e, para sua surpresa, não soube como se sentir a respeito da ideia.
Havia uma parte dele que se lembrava do quanto ele gostava da sua antiga vida lá, mas tantas coisas estariam mudadas agora. Karl e os outros dois amigos cujos nomes não conseguia mais lembrar provavelmente já o teriam esquecido àquela altura. A avó estava morta e eles quase nunca tinham notícias do avô, que, segundo o pai havia ficado senil.
Por outro lado, ele havia se acostumado com a vida em Haja-Vista: não se incomodava com herr Liszt, tinha ficado muito mais próximo de Maria do que jamais fora em Berlim, Gretel ainda estava passando por uma fase e ficava fora do caminho dele (e também não parecia mais um Caso tão Perdido assim) e suas conversas com Shmuel às tardes o enchiam de alegria.
Bruno não sabia como se sentir e decidiu que, acontecesse o que acontecesse, aceitaria a decisão sem se queixar.
Nada mudou durante algumas semanas; a vida prosseguiu normalmente. O pai passava a maior parte do tempo no escritório ou do outro lado da cerca. A mãe passava os dias em silêncio e tirava cada vez mais sonecas vespertinas, algumas nem mesmo à tarde, mas antes do almoço, e Bruno estava preocupado com a sua saúde porque nunca tinha visto alguém precisar de tantos tragos de xerez medicinal quanto ela. Gretel ficava em seu quarto, concentrada nos muitos mapas que havia colado pelas paredes e consultando os jornais durante horas antes de mover um pouco os seus pinos. (Herr Liszt ficava muito satisfeito em vê-la fazendo isso.)
E Bruno fazia exatamente o que lhe pediam e não criava confusão e se divertia com o fato de ele ter um amigo secreto sobre o qual ninguém sabia.
Então um dia o pai convocou Bruno e Gretel a seu escritório e informou-os sobre as mudanças que estavam por vir.
— Sentem-se, crianças — disse ele , indicando duas grandes poltronas de couro nas quais eles habitualmente eram proibidos de se sentar quando visitaram o escritório do pai, por causa de suas mãos sujas. O pai sentou-se do outro lado da escrivaninha. — Decidimos fazer algumas mudanças — prosseguiu ele, parecendo triste enquanto falava. — Digam-me uma coisa: vocês são felizes aqui?
— Sim, pai, é claro — disse Gretel.
— Certamente, pai — disse Bruno.
— E não sentem falta nenhuma de Berlim?
As crianças fizeram uma pausa e se entreolharam, perguntando-se qual dos dois iria se comprometer com uma primeira resposta.
— Bem, eu sinto muita falta — disse Gretel afinal. — Não me importaria de ter algumas amigas novamente.
Bruno sorriu, pensando no seu segredo.
— Amigas — disse o pai, acenando com a cabeça. — Sim, muitas vezes pensei nisso. Aqui deve ter sido solitário para você em alguns momentos.
— Muito solitário — disse Gretel numa voz determinada.
— E você, Bruno? — perguntou o pai, agora olhando para ele. — Sente falta de seus amigos?
— Bem, sim — respondeu ele, pensando cuidadosamente na resposta. — Mas acho que sentiria falta das pessoas aonde quer que eu fosse. — Era uma referência indireta que ele fazia a Shmuel, mas não queria ter de ser mais explícito.
— Mas você gostaria de voltar a Berlim? — perguntou o pai. — Se houvesse a oportunidade?
— Todos nós? — perguntou Bruno.
O pai deu um suspiro profundo e balançou a cabeça.
— Mamãe, Gretel e você. De volta a nossa antiga casa em Berlim. Gostaria de voltar para lá?
Bruno pensou a respeito.
— Bom, eu não gostaria se você não estivesse lá — disse ele, pois era a verdade.
— Prefere ficar aqui comigo?
— Prefiro que nós quatro fiquemos juntos — disse ele, relutantemente incluindo Gretel no “nós”. — Seja em Berlim ou em Haja-Vista.
— Oh, Bruno! — disse Gretel, exasperada, o que ele não soube dizer se era porque ele estaria estragando os planos dela de voltar à cidade ou se era porque (de acordo com ela) continuava pronunciando errado o nome da casa atual.
— Bem, no momento temo que isso seja impossível — disse o pai. — Infelizmente o Fúria não vai me dispensar da tarefa no momento. Sua mãe, por outro lado, acha que seria uma boa hora para vocês três voltarem a Berlim e reabrirem a casa, e quando eu penso a respeito… — Ele parou por um instante e olhou para a janela à sua esquerda – a janela que tinha vista para o campo do outro lado da cerca. — Quando penso a respeito, talvez ela esteja certa. Talvez este não seja um lugar para crianças.
— Há centenas de crianças aqui — disse Bruno, sem pensar realmente nas palavras antes de dizê-las. — Só que elas ficam do outro lado da cerca.
Um silêncio se seguiu a esse comentário, mas não foi um silêncio normal, quando por acaso não há ninguém falando. Era como se fosse um silêncio muito barulhento. O pai e Gretel ficaram olhando para ele, que piscou os olhos, surpreso.
— Como assim, há centenas de crianças do outro lado? — perguntou o pai. — O que você sabe sobre o que acontece daquele lado?
Bruno abriu a boca para falar, porém teve medo de se meter em encrenca se revelasse demais.
— Eu as vejo da janela do meu quarto — disse afinal. — Estão muito longe, é claro, mas parecem centenas. Todas vestindo os mesmos pijamas listrados.
— Os pijamas listrados, sim — disse o pai, acenando afirmativamente. — E você as esteve observando, não é?
— Bem, eu as vi — disse Bruno. — Não sei se é a mesma coisa.
O pai sorriu.
— Muito bem, Bruno — disse ele. — E você está certo, não é bem a mesma coisa. — Ele hesitou novamente e então acenou com a cabeça, como se tivesse tomado uma decisão final.
— Não, ela está certa — disse ele, falando em voz alta, mas sem olhar para Gretel ou Bruno. — Ela tem toda a razão. Vocês já passaram tempo demais aqui. É hora de irem todos para casa.
E então a decisão foi tomada. Mandaram avisar que a casa precisava ser limpa, as janelas lavadas, o corrimão encerado, as roupas de cama e mesa passadas, as camas feitas, e o pai anunciou que a mãe, Gretel e Bruno voltariam a Berlim dentro de uma semana.
Bruno descobriu que não estava esperando por aquele momento tanto quanto havia previsto e temia ter que dar a notícia a Shmuel.


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