terça-feira, 26 de julho de 2016

Capítulo 12 - Shmuel pensa numa resposta para a pergunta de Bruno

     — Tudo o que eu sei é o seguinte — começou Shmuel. — Antes de virmos para cá eu morava com minha mãe e meu pai e meu irmão Josef num pequeno apartamento sobre a loja onde papai fazia seus relógios. Todo dia tomávamos o café da manhã juntos às sete horas, e, enquanto íamos à escola, papai consertava os relógios que as pessoas lhe traziam e fazia alguns novos também. Eu tinha um lindo relógio que ele me deu, mas não está mais comigo. Era dourado, e toda noite eu dava corda nele antes de dormir, e ele sempre marcava a hora certa.
     — O que aconteceu com ele? — perguntou Bruno.
     — Eles o tomaram de mim — disse Shmuel.
     — Quem?
     — Os soldados, é claro — disse Shmuel, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
     — E então um dia as coisas começaram a mudar — ele prosseguiu. — Eu voltei da escola, e minha mãe estava costurando braçadeiras para nós, feitas de um tecido especial, e desenhando uma estrela sobre cada uma delas. Como esta. — Usando a ponta do dedo, ele reproduziu o desenho no chão poeirento.




     — E sempre que saíamos de casa, ela dizia, tínhamos de usar uma daquelas braçadeiras.

     — Meu pai também usa uma — disse Bruno. — Em seu uniforme. É bem bonita. É de um vermelho brilhante, com um desenho branco e preto feito por cima. — Usando a ponta do dedo ele reproduziu o outro desenho na poeira do chão do seu lado da cerca.




     — É, mas elas são diferentes, não? — disse Shmuel.

     — Ninguém jamais me deu uma braçadeira — disse Bruno.
     — Mas eu nunca pedi para usar uma delas — disse Shmuel.
     — Mesmo assim — disse Bruno — acho que bem que eu gostaria de usar uma. Não sei qual delas eu preferiria, se a sua ou a do meu pai. 
     Shmuel balançou a cabeça e continuou sua história. Ele não costumava mais pensar naquelas coisas, uma vez que relembrar a antiga vida sobre a loja de relógios o entristecia muito.
     — Usamos as braçadeiras durante alguns meses —  ele disse. — E então as coisas mudaram novamente. Cheguei em casa um dia, e a mamãe disse que não poderíamos mais morar na nossa casa...
     — Isso também aconteceu comigo! — gritou Bruno, deleitando-se com o fato de não ser o único menino que fora obrigado a se mudar. — O Fúria veio para o jantar, sabe, e pouco depois nós tivemos que nos mudar para cá. E eu odeio este lugar — ele acrescentou numa voz exaltada. — Por acaso ele foi até sua casa e fez o mesmo?
     — Não, mas quando nos disseram que não podíamos mais morar na nossa casa, tivemos que nos mudar para outra parte de Cracóvia, onde os soldados haviam construído um grande muro, e minha mãe e meu pai e meu irmão e eu, todos tínhamos que morar no mesmo quarto.
     — Vocês quatro — perguntou Bruno. — Vivendo num único quarto?
     — E não éramos apenas nós — disse Shmuel. — Havia lá outra família morando conosco, e a mãe e o pai estavam sempre brigando, e um de seus filhos era maior do que eu e batia em mim, mesmo quando eu não havia feito nada de errado.
     — Não é possível que tenham morado todos no mesmo quarto! — disse Bruno, balançando a cabeça. — Não faz o menor sentido.
     — Todos nós nos mesmo quarto — disse Shmuel, acenando afirmativamente.
     — Éramos onze ao todo.
     Bruno abriu a boca para contradizê-lo novamente – ele não podia acreditar que onze pessoas pudessem viver juntas num mesmo quarto -, mas mudou de ideia.
     — Moramos lá por mais alguns meses — continuou Shmuel — todos nós naquele único quarto. Havia apenas uma pequena janela, só que eu não gostava de olhar através dela porque, então, via o muro, e eu odiava o muro, porque nossa verdadeira casa ficava do outro lado. E aquela parte da cidade era a parte ruim, porque havia sempre muito barulho e era impossível dormir. E eu odiava o Luka, que era o menino que continuava me batendo, mesmo quando eu não tinha feito nada de errado.
     — Gretel me bate às vezes — disse Bruno. — É a minha irmã — acrescentou ele. — E também um Caso Perdido. Mas logo eu serei maior e mais forte e, então, ela não vai nem mesmo saber de onde veio o tapa.
     — Então, um dia vieram os soldados e seus gigantescos caminhões — continuou Shmuel, que não parecia muito interessado em Gretel. — E todos tiveram que deixar suas casas. Muitas pessoas não queriam ir e se esconderam em qualquer lugar que puderam encontrar, mas, afinal, acho que pegaram todos. E os caminhões nos levaram a um trem, e o trem... — Ele hesitou por um instante e mordeu o lábio. Bruno pensou que ele ia começar a chorar e não entendeu por quê.  O trem era horrível — disse Shmuel. — Havia muitos de nós nos vagões, para começar. E não havia ar para respirar. E o cheiro era terrível.
     — Mas isso é porque vocês estavam amontoados num único trem — disse Bruno, lembrando-se dos dois trens que vira na estação no dia em que deixou Berlim. — Quando viemos para cá, havia outro trem no lado oposto da plataforma, só que ninguém parecia vê-lo. Foi neste que nós entramos. Você devia ter subido neste trem também.
     — Acho que não seríamos admitidos — disse Shmuel, balançando a cabeça. — Não
podíamos sair do vagão. 
     — As portas ficam no final — explicou Bruno.
     — Não havia portas — disse Shmuel.
     — É claro que havia portas — disse Bruno num suspiro. — Ficam no final — repetiu ele.  Logo depois do restaurante.
     — Não havia portas — insistiu Shmuel. — Se houvesse, teríamos todos descido.
     Bruno murmurou alguma coisa em voz baixa como
     — É claro que havia — mas não muito alto e Shmuel não pôde ouvi-lo.
     — Quando finalmente o trem parou — prosseguiu Shmuel, — estávamos num lugar muito frio e tivemos que caminhar até aqui.
     — Nós tínhamos um carro nos esperando — disse Bruno, agora em voz alta.
     — E levaram minha mãe embora, e papai, Josef e eu fomos colocados nas cabanas logo ali e é onde ficamos desde então.
     Shmuel parecia muito triste ao contar sua história e Bruno não sabia ao certo por quê; para ele não parecia algo tão terrível e, afinal, muito do que acontecera a um acontecera ao outro.
     — Há muitos outros meninos do seu lado da cerca? — perguntou Bruno.
     — Centenas — disse Shmuel.
     Os olhos de Bruno se arregalaram.
     — Centenas? — ele disse estupefato. — Não é justo. Deste lado da cerca não há ninguém com quem brincar. Nem uma única pessoa.
     — Nós não brincamos — disse Shmuel.
     — Não brincam? Mas por que vocês não brincam?
     — De que brincaríamos? — perguntou ele, seu rosto parecendo confuso só de pensar na ideia.
     — Bem, eu não sei — disse Bruno. — De qualquer coisa. Futebol, por exemplo. Ou exploração. Como é a exploração aí do seu lado da cerca? É legal? — Shmuel balançou a cabeça e não respondeu. Ele olhou de volta para as cabanas e se voltou para Bruno. Não queria fazer a próxima pergunta, mas a dor em seu estômago o obrigou a fazê-la.
     — Trouxe alguma comida com você? — ele perguntou.
     — Infelizmente não — disse Bruno. — Eu pensei em trazer um pedaço de chocolate, mas esqueci.
     — Chocolate — disse Shmuel bem devagar, sua língua saindo de trás dos dentes. — Só comi chocolate uma vez na vida.
     — Uma vez? Eu adoro chocolate. Não consigo enjoar, se bem que minha mãe diga que isso faz os dentes apodrecerem.
     — Trouxe algum pão?
     Bruno balançou a cabeça.
     — Nada mesmo — disse ele. — O jantar só é servido às seis e meia. A que horas servem o seu jantar? 
     Shmuel deu de ombros e se levantou.
     — Acho melhor voltar — ele disse.
     — Quem sabe você possa vir jantar conosco uma noite qualquer — disse Bruno,
embora não estivesse certo de que seria uma boa ideia.
     — Quem sabe — disse Shmuel, apesar de não ter soado muito convincente.
     — Ou eu poderia ir até aí — disse Bruno. — Quem sabe você me apresenta aos seus amigos — acrescentou ele, esperançoso. Ele torceu para que Shmuel abraçasse sua ideia, mas aparentemente ele não o faria.
     — É que você está do lado errado da cerca — disse o outro menino.
     — Eu poderia rastejar por baixo dela — disse Bruno, abaixando-se e agarrando o arame e o erguendo do chão. No meio, entre os postes telegráficos de madeira, o arame levantava facilmente e um menino no tamanho de Bruno conseguiria passar sem dificuldade.
     Shmuel observou-o fazendo isso e afastou-se, nervoso.
     — Tenho que voltar — disse ele.
     — Quem sabe numa outra tarde — disse Bruno.
     — Eu não deveria estar aqui. Se me pegarem, estarei encrencado. — Ele se voltou e caminhou na direção oposta e Bruno constatou como seu novo amigo era pequeno e magro. Ele nada comentou sobre isso porque sabia muito bem como é desagradável ser criticado por uma coisa tão boba quanto a própria altura, e a última coisa que ele queria era ofender Shmuel.
     — Voltarei amanhã — gritou Bruno para o menino que o deixava, e Shmuel não respondeu; na verdade ele começou a correr na direção do campo, deixando Bruno sozinho.
     Bruno decidiu que já explorara mais do que o suficiente para um dia e foi para casa animado pelo que acontecera e desejoso de contar à mãe a ao pai e à Gretel – que teria tanta inveja que era capaz de explodir – e à Maria e ao cozinheiro e a Lars tudo sobre sua aventura naquela tarde com seu novo amigo de nome engraçado e que fazia aniversário no mesmo dia que ele; contudo, quanto mais se aproximava da casa, mais ele pensava que talvez essa não fosse uma boa ideia.
     Afinal, Bruno raciocinou, era possível que eles não quisessem mais que ele e Shmuel fossem amigos, e, se isso acontecesse, eles o impediriam de sair de lá para o que quer que fosse. Quando passou pela porta da frente e sentiu o cheiro do filé que estava assando no forno para o jantar, já tinha decidido que o melhor era ficar quieto sobre o que havia acontecido e não dizer uma palavra a respeito. Seria o seu segredo. Bem, o segredo dele e de Shmuel.
     Bruno era da opinião de que, em se tratando de pais, e especialmente em se tratando de irmãs, tudo o que eles não sabiam não podia feri-los.

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